19/02/2010

Manejo Integrado de Pragas é debatido em dia de campo


No início da década de 70, antes da implantação do MIP-soja, ocorria uma média de aproximadamente seis aplicações de inseticidas por ciclo da cultura, utilizando produtos de largo espectro de ação para o controle das pragas como o DDT, monocrotofós, entre outros. Com a criação da Embrapa Soja, em 1975, iniciou-se, junto com diferentes instituições parceiras, os trabalhos de MIP-soja. Com a adoção desta tecnologia, cuja uma das premissas é uso do inseticida no momento certo e apenas quando necessário, esse quadro foi revertido para a média de duas aplicações de inseticidas por safra. Infelizmente, nos últimos anos tem havido um grande retrocesso na adoção do MIP-soja com um aumento do uso abusivo e errôneo de inseticidas de largo espectro de ação, em detrimento do controle biológico, cujo uso e/ou preservação tem sido reduzido a cada ano. Isso é desastroso e representa mais inseticida à nossa mesa além de maior desequilíbrio ambiental e maior custo de produção ao sojicultor. É claro que os inseticidas são ferramentas importantes na produção agrícola, mas devem ser usados com critérios.
A sojicultura no Brasil teve um marco importante como o aparecimento da ferrugem asiática e com a liberação da soja transgênica RR®. As aplicações de fungicidas e herbicidas passaram a ser mais freqüentes durante o ciclo da soja em épocas mais ou menos pré-estabelecidas. Muitos agricultores, na tentativa errônea de tentar aproveitar as aplicações de herbicidas em pós-emergência no início do desenvolvimento e posteriormente de fungicidas no período reprodutivo, acabam por adicionar inseticidas em mistura de tanque, sem qualquer consideração com a real infestação de insetos-pragas na lavoura. Dessa forma, não necessariamente em decorrência direta do uso de herbicida e/ou fungicida, mas sim do uso errôneo de inseticidas em mistura com estes produtos, os problemas com pragas têm aumentado nas lavouras de soja nos últimos anos. Para piorar ainda mais esse cenário, muitas vezes os produtores menos preparados, ao perceberem uma baixa infestação de pragas, decidem usar doses de inseticidas abaixo do registrado para uso na cultura o que é popularmente conhecido como “cheirinho” que, segundo a percepção do produtor, é utilizado na tentativa de prevenir o surgimento da praga. Entretanto, é importante salientar que nunca é recomendada a aplicação preventiva de produtos químicos para o controle de pragas da soja e nunca deve ser utilizado nenhum tipo de controle, quando o custo deste for maior do que o prejuízo causado pelo inseto. Esse nível de infestação é o que chamamos de nível de ação (NA). O NA para lagartas ou desfolhares em geral é de 20 lagartas/metro de linha de soja ou quando a desfolha for igual ou superior a 30% no período vegetativo, ou 15% no período reprodutivo da soja. No caso do complexo de percevejos, em qualquer cultivar de soja, somente deve-se iniciar o controle quando houver 2 percevejos (ninfas ou adultos) maiores do que 0,4 cm por metro de fileira de soja destinada à industria. Esse nível de ação deve ser reduzido pela metade quando a finalidade da soja for para semente. Sendo assim, a única maneira de se saber o momento certo de usar inseticidas na lavoura é através do monitoramento com o uso do pano-de-batida (Figura 1).

Figura 1. Pano-de-batida para amostragem de pragas na cultura da soja (Foto: Embrapa Soja).

Na tentativa de demonstrar aos sojicultores a importância e a lucratividade da implantação do MIP-soja, a Embrapa Soja tem desenvolvido alguns trabalhos de campo. Resultados obtidos até o momento mostram que utilizar o MIP-soja, além de proporcionar um melhor manejo de pragas, também aumenta a lucratividade da lavoura. Esses trabalhos têm comparado diferentes tipos de manejo como, por exemplo: 1) Uso exclusivo do controle biológico (CB); 2) Manejo integrado de pragas (utilizando-se produtos mais seletivos e quando a infestação atinge o nível de ação); 3) Tratamento abusivo com inseticidas (infelizmente comum para alguns produtores que abusam do uso de piretróides e outros produtos não seletivos aos insetos benéficos normalmente em mistura com herbicidas e fungicidas) e o tratamento 4) Testemunha (sem uso de inseticidas). Os resultados obtidos têm mostrando que, apesar de algumas vezes ocorrer uma desfolha maior nas áreas com menos aplicação de inseticidas (MIP e CB), a produção não tem sido prejudicada quando em comparação com o tratamento com excesso de aplicação de inseticidas. Portanto, é evidente a maior lucratividade das áreas com MIP onde a preservação e uso do controle biológico é adotado, visto que estas áreas têm apresentado a mesma produção com uma menor necessidade de inseticidas.
Sendo assim, a retomada da adoção do MIP-soja com a revitalização do uso do pano-de-batida, para monitoramento e tomada de decisões de controle somente quando a população de pragas atingir os níveis de ação preconizados pela pesquisa, é uma das alternativas importantes para o sojicultor manter-se competitivo no mercado, com redução dos custos e maximização da produtividade, além de preservar seu bem mais precioso, que é o meio ambiente.
 Para quem tiver interesse em discutir o manejo integrado de pragas com pesquisadores da Embrapa Soja, uma grande oportunidade será no dia campo que será promovido pela Emater de Arapongas, que ocorrerá no dia 24/02/2010 às 14 horas na Fazenda Ingazeiro, Comunidade Novo Mundo na Estrada da Vila Rural em Arapongas, PR, onde os participantes poderão, dentre as diversas atividades programadas, visitar um ensaio de manejo de pragas onde foi comparado diferentes tipos de controle, além de assistir a uma breve explanação sobre o assunto a ser realizada pelos pesquisadores da Embrapa Soja.

Mais informações de como participar no dia de campo com Antônio Bodnar  ou Gisele na Emater de Arapongas, PR no telefone (43) 3252-1123.

Texto: Adeney de Freitas Bueno (Embrapa Soja),Beatriz S. Corrêa-Ferreira (CNPq/Embrapa Soja),Regiane Cristina Oliveira de Freitas Bueno (CAPES/FESURV/Embrapa Soja)