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Embrapa
Soja
Sistema de Produção, No 1. |
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Tecnologias
de Produção de Soja
Região Central do Brasil 2004 |
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Autor(es) |
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A
Soja no Brasil |
A Soja no Brasil |
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A soja (Glycine max (L.) Merrill) que hoje é cultivada mundo afora, é muito diferente dos ancestrais que lhe deram origem: espécies de plantas rasteiras que se desenvolviam na costa leste da Ásia, principalmente ao longo do Rio Amarelo, na China. Sua evolução começou com o aparecimento de plantas oriundas de cruzamentos naturais, entre duas espécies de soja selvagem, que foram domesticadas e melhoradas por cientistas da antiga China. Sua importância na dieta alimentar da antiga civilização chinesa era tal, que a soja, juntamente com o trigo, o arroz, o centeio e o milheto, era considerada um grão sagrado, com direito a cerimoniais ritualísticos na época da semeadura e da colheita.
A
partir de 1941, a área cultivada para grãos superou a cultivada
para forragem, cujo cultivo declinou rapidamente, até desaparecer
em meados dos anos 60, enquanto a área cultivada para a produção
de grãos crescia de forma exponencial, não apenas nos EUA,
como também no Brasil e na Argentina, principalmente (Figura
1). Em
2003, o Brasil figura como o segundo produtor mundial, responsável
por 52, das 194 milhões de toneladas produzidas em nível
global ou 26,8% da safra mundial.
Em
1900 e 1901, o Instituto Agronômico de Campinas, SP, promoveu a
primeira distribuição de sementes de soja para produtores
paulistas e, nessa mesma data, têm-se registro do primeiro cultivo
de soja no Rio Grande do Sul (RS), onde a cultura encontrou efetivas condições
para se desenvolver e expandir, dadas as semelhanças climáticas
do ecossistema de origem (sul dos EUA) dos materiais genéticos
existentes no País, com as condições climáticas
predominantes no extremo sul do Brasil. Com
o estabelecimento do programa oficial de incentivo à triticultura
nacional, em meados dos anos 50, a cultura da soja foi igualmente incentivada,
por ser, desde o ponto de vista técnico (leguminosa sucedendo gramínia),
quanto econômico (melhor aproveitamento da terra, das máquinas/implementos,
da infra-estrutura e da mão de obra), a melhor alternativa de verão
para suceder o trigo cultivado no inverno.
Apesar
do significativo crescimento da produção no correr dos anos
60, foi na década seguinte que a soja se consolidou como a principal
cultura do agronegócio brasileiro, passando de 1,5 milhões
de toneladas (1970) para mais de 15 milhões de toneladas (1979).
Esse crescimento se deveu, não apenas ao aumento da área
cultivada (1,3 para 8,8 milhões de hectares), mas, também,
ao expressivo incremento da produtividade (1,14 para 1,73t/ha) graças
às novas tecnologias disponibilizadas aos produtores pela pesquisa
brasileira. Mais de 80% do volume produzido na época ainda se concentrava
nos três estados da Região Sul do Brasil. Nas
décadas de 1980 e 1990 repetiu-se, na região tropical do
Brasil, o explosivo crescimento da produção ocorrido nas
duas décadas anteriores na Região Sul. Em 1970, menos de
2% da produção nacional de soja era colhida no centro-oeste.
Em 1980, esse percentual passou para 20%, em 1990 já era superior
a 40% e em 2003 está próximo dos 60%, com tendências
a ocupar maior espaço a cada nova safra. Essa transformação
promoveu o Estado do Mato Grosso, de produtor marginal a líder
nacional de produção e de produtividade de soja, com boas
perspectivas de consolidar-se nessa posição (Figura
2). A
soja foi a única cultura a ter um crescimento expressivo na sua
área cultivada ao longo das últimas três décadas
(Figura 3). *
semelhança do ecossistema do sul do Brasil com aquele predominante
no sul dos EUA, favorecendo o êxito na transferência e adoção
de variedades e outras tecnologias de produção; *
estabelecimento da “Operação Tatu” no RS, em meados dos
anos 60, cujo programa promoveu a calagem e a correção da
fertilidade dos solos, favorecendo o cultivo da soja naquele estado, então
o grande produtor nacional da oleaginosa; *
incentivos fiscais disponibilizados aos produtores de trigo nos anos 50,
60 e 70 beneficiaram igualmente a cultura da soja, que utiliza, no verão,
a mesma área, mão de obra e maquinaria do trigo cultivado
no inverno; *
mercado internacional em alta, principalmente em meados dos anos 70, em
resposta à frustração da safra de grãos na
Rússia e China, assim como da pesca da anchova no Peru, cuja farinha
era amplamente utilizada como componente proteico na fabricação
de rações para animais, para o que os fabricantes do produto
passaram a utilizar-se do farelo de soja; *
substituição das gorduras animais (banha e manteiga) por
óleos vegetais, mais saudáveis ao consumo humano; *
estabelecimento de um importante parque industrial de processamento de
soja, de máquinas e de insumos agrícolas, em contrapartida
aos incentivos fiscais do governo, disponibilizados tanto para o incremento
da produção, quanto para o estabelecimento de agro-indústrias; *
facilidades de mecanização total da cultura; *
surgimento de um sistema cooperativista dinâmico e eficiente, que
apoiou fortemente a produção, a industrialização
e a comercialização das safras; *
estabelecimento de uma bem articulada rede de pesquisa de soja envolvendo
os poderes públicos federal e estadual, apoiada financeiramente
pela indústria privada (Swift, Anderson Clayton, Samrig, etc.);
e * melhorias nos sistemas viário, portuário e de comunicações, facilitando e agilizando o transporte e as exportações.
*
construção de Brasília na região, determinando
uma série de melhorias na infra-estrutura regional, principalmente
vias de acesso, comunicações e urbanização; *
incentivos fiscais disponibilizados para a abertura de novas áreas
de produção agrícola, assim como para a aquisição
de máquinas e construção de silos e armazéns; *
estabelecimento de agro-indústrias na região, estimuladas
pelos mesmos incentivos fiscais disponibilizados para a ampliação
da fronteira agrícola; *
baixo valor da terra na região, comparado ao da Região Sul,
nas décadas de 1960/70/80; *
desenvolvimento de um bem sucedido pacote tecnológico para a produção
de soja na região, com destaque para as novas cultivares adaptadas
à condição de baixa latitude da região; *
topografia altamente favorável à mecanização,
favorecendo o uso de máquinas e equipamentos de grande porte, o
que propicia economia de mão de obra e maior rendimento nas operações
de preparo do solo, tratos culturais e colheita; *
boas condições físicas dos solos da região,
facilitando as operaçõesda maquinaria agrícola e
compensando, parcialmente, as desfavoráveis características
químicas desses solos; *
melhorias no sistema de transporte da produção regional,
com o estabelecimento de corredores de exportação, utilizando
articuladamente rodovias, ferrovias e hidrovias; *
bom nível econômico e tecnológico dos produtores de
soja da região, oriundos, em sua maioria, da Região Sul,
onde cultivavam soja com sucesso previamente à sua fixação
na região tropical; e *
regime pluviométrico da região altamente favorável
aos cultivos de verão, em contraste com os frequentes veranicos
ocorrentes na Região Sul, destacadamente no RS.
O explosivo crescimento da produção de soja no Brasil, de quase 260 vezes no transcorrer de apenas quatro décadas, determinou uma cadeia de mudanças sem precedentes na história do País. Foi a soja, inicialmente auxiliada pelo trigo, a grande responsável pelo surgimento da agricultura comercial no Brasil. Também, ela apoiou ou foi a grande responsável pela aceleração da mecanização das lavouras brasileiras, pela modernização do sistema de transportes, pela expansão da fronteira agrícola, pela profissionalização e pelo incremento do comércio internacional, pela modificação e pelo enriquecimento da dieta alimentar dos brasileiros, pela aceleração da urbanização do País, pela interiorização da população brasileira (excessivamente concentrada no sul, sudeste e litoral do Norte e Nordeste), pela tecnificação de outras culturas (destacadamente a do milho), bem como impulsionou e interiorizou a agro-indústria nacional, patrocinando a expansão da avicultura e da suinocultura brasileiras (Figura 4).
*
crescerá o consumo e conseqüentemente a demanda por soja no
mundo, pois a população humana continuará aumentando; *
o poder aquisitivo dessa população continuará incrementando-se,
destacadamente na Ásia, onde está o maior potencial de consumo
da oleaginosa; *
o temor da doença da vaca louca manterá em alta o consumo
de carne suína e de frango, cuja alimentação é
feita com rações à base de farelo de soja, cuja demanda
crescerá, também em razão da proibição,
na Europa, do uso de farinha de carne nas rações para bovinos; * os usos industriais não tradicionais da soja, como biodiesel, tintas, vernizes, entre outros, aumentarão a demanda do produto; *
o consumo interno de soja deverá crescer, estimulado por políticas
oficiais destinadas a aproveitar o enorme potencial produtivo do País,
que está excessivamente dependente do mercado externo; *
o protecionismo e os subsídios à soja, patrocinados pelos
países ricos, tenderão a diminuir pela lógica e pressão
dos mercados e da Organização Mundial do Comércio,
aumentando, conseqüentemente, os preços internacionais, que
estimularão a produção e as exportações
brasileiras; *
a produção dos nossos principais concorrentes (EUA, Argentina,
Índia e China) tenderá a estabilizar-se por falta de áreas
disponíveis para expansão em seus territórios; *
a cadeia produtiva da soja brasileira tenderá a desonerar-se dos
pesados tributos sobre ela incidentes, para incrementar a sua competitividade
no mercado externo, de vez que o País precisa “exportar ou morrer”;
e *
pode-se estimar, também, pelas tendências do quadro atual
da agricultura brasileira, que a produção da oleaginosa
no País se concentrará cada vez mais nas grandes propriedades
do centro-oeste, em detrimento das pequenas e médias propriedades
da Região Sul, cujos proprietários, por falta de competitividade
na produção de grãos, tenderão migrar para
atividades agrícolas mais rentáveis (produção
de leite, criação de suínos e de aves, cultivo de
frutas e de hortaliças, ecoturismo, entre outros), porque são
mais intensivas no uso de mão de obra, “mercadoria” geralmente
abundante em pequenas propriedades familiares, onde o recurso escasso
é a terra. Feitas
essas considerações, parece racional acreditar positivamente
no futuro da produção brasileira de soja, de vez que, dentre
os grandes produtores mundiais da oleaginosa, o Brasil figura como o país
que apresenta as melhores condições para expandir a produção
e prover o esperado aumento da demanda mundial. Este País possui,
apenas no ecossistema dos Cerrados, mais de 50 milhões de hectares
de terras ainda virgens e aptas para a sua imediata incorporação
ao processo produtivo da soja. Com exceção, talvez, da Argentina,
que ainda poderá crescer até um máximo de dez milhões
de hectares, a área cultivada com soja nos EUA, na China e na Índia,
que juntos com o Brasil produzem mais de 90% da soja mundial, só
crescerá se diminuírem as áreas de outros cultivos.
Sua fronteira agrícola está quase ou totalmente esgotada.
Em
última análise, o futuro da soja brasileira dependerá
da sua competitividade no mercado global, para o que precisará,
além do empenho do produtor, o apoio governamental, destacadamente
na abertura e na integração de novas e mais baratas vias
de escoamento da produção. Iniciativas nesse sentido já
estão sendo tomadas com a implementação dos Corredores
de Exportação Noroeste, Centro-Norte, Cuiabá-Santarém
e Paraná-Paraguai, integrando rodovias, ferrovias e hidrovias aos
sistemas de transporte da produção agrícola nacional.
Esse esforço do governo é indispensável para que
o País possa reduzir a importância desse item na composição
dos custos totais da tonelada de produto brasileiro que chega aos mercados
internacionais. O custo médio do transporte rodoviário é
muito mais alto que o ferroviário e este mais alto que o hidroviário.
Apenas para ilustrar, 16% da soja americana é transportada por
rodovias, contra 67% da brasileira. Em contrapartida, 61% da soja americana
viaja por hidrovias, contra 5% da brasileira. Estima-se
que, antes de terminar a presente década, o Brasil figurará
como líder mundial na produção dessa leguminosa.
Só precisará de tratamento equânime, o que implica
na eliminação dos subsídios e do protecionismo, práticas
abusivas que distorcem o livre comércio, enfaticamente condenadas
por quem, cinicamente, mais as pratica: os países ricos. O
rápido desenvolvimento do cultivo da soja no País, a partir
dos anos 60, fez surgir um novo e agressivo setor produtivo, altamente
demandante por tecnologias que a pesquisa ainda não estava estruturada
para oferecer na quantidade e qualidade desejadas. Conseqüentemente,
os poucos programas de pesquisa com soja existentes na região foram
fortalecidos e novos núcleos de pesquisa foram criados no sudeste
e centro oeste, principalmente. De
todas as iniciativas para incrementar e fortalecer a pesquisa com soja
no País, implementadas a partir dessa época, merece destaque
a criação da Embrapa Soja em 1975, que patrocinaria, já
a partir do ano seguinte, a instituição do Programa Nacional
de Pesquisa de Soja, cujo propósito foi o de integrar e potencializar
os isolados esforços de pesquisa com a cultura espalhados pelo
sul e sudeste. Até
1970, a preocupação maior dos programas de pesquisa de soja
brasileiros era com a produtividade. Com menor ênfase, também
buscavam a altura adequada da planta para a colheita mecânica, a
resistência ao acamamento e resistência à deiscência
das vagens. Os problemas fitossanitários não preocupavam
muito os pesquisadores da época. Foi somente a partir dos anos
80 que resistência a doenças como a Pústula Bacteriana,
o Fogo Selvagem e a Mancha Olho-de-Rã passaram a se constituir
em características necessárias para a recomendação
de uma nova cultivar. Posteriormente, problemas fitossanitários
maiores surgiram, como o Cancro da Haste, o Nematoide de Cisto e o Oídio,
ampliando a lista de exigências para a recomendação
de novas cultivares. É
conquista da pesquisa brasileira o desenvolvimento de cultivares adaptadas
às baixas latitudes dos climas tropicais. Até 1970, os cultivos
comerciais de soja no mundo restringiam-se a regiões de climas
temperados e subtropicais, cujas latitudes estavam próximas ou
superiores aos 30º. Os pesquisadores brasileiros conseguiram romper
essa barreira, desenvolvendo germoplasma adaptado às condições
tropicais e viabilizando o seu cultivo em qualquer ponto do território
nacional e transformando, somente no Ecossistema do Cerrado, mais de 200
milhões de hectares improdutivos em área potencial para
o cultivo da soja e de outros grãos. A
Embrapa Soja tem tido participação decisiva no avanço
da cultura rumo às regiões tropicais, em função
do modelo de parcerias - principalmente com associações
de produtores de sementes - utilizado em seu programa de melhoramento
genético. Esses parceiros incrementaram enormemente a capacidade
de desenvolvimento de novas cultivares da Embrapa, Brasil afora, dando
sustentação financeira e, conseqüentemente, agilizando
o processo (Figura 5). Fruto
desse modelo, as “cultivares Embrapa” respondem por mais de 50% do mercado
nacional de sementes de soja. A oferta de cultivares foi acompanhada pela
incorporação, tanto nas “velhas” quanto nas novas cultivares,
de resistência às principais doenças que atacam a
cultura no País. Estudos
sobre a nutrição da soja possibilitaram melhor manejo da
adubação e da calagem e a seleção de estirpes
eficientes de Bradyrhizobium spp, enriqueceram os inoculantes, substituindo
completamente a adubação nitrogenada. Pesquisas com micronutrientes
indicaram a necessidade de sua utilização, particularmente
nos Cerrados, para obter-se máximos rendimentos, assim como, trabalhos
sobre manejo de solos e rotação de culturas, resultaram
na substituição quase total da semeadura convencional pela
direta, com reflexos positivos na sustentabilidade dos sistemas produtivos.
O
zoneamento agroclimático desenvolvido pela Embrapa Soja permitiu
indicar as áreas mais aptas para a produção de soja
no País, onde, produzir sementes de qualidade sempre foi um desafio,
superado com tecnologias como o Diagnóstico Completo (Diacom),
evolvendo princípios de vigor e patologia de sementes. A
caracterização dos principais fatores responsáveis
por perdas no processo de colheita e a conscientização dos
produtores sobre o volume dessas perdas e suas causas, possibilitaram
a sua redução média de, aproximadamente, quatro para
dois sacos/ha. Estudos sobre características nutricionais da soja têm promovido a sua incorporação à dieta alimentar da população brasileira. |
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