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11.1.
Considerações gerais
Entre os principais fatores que limitam a obtenção de altos
rendimentos em soja estão as doenças. Aproximadamente 40
doenças causadas por fungos, bactérias, nematóides
e vírus já foram identificadas no Brasil. Esse número
continua aumentando com a expansão da soja para novas áreas
e como conseqüência da monocultura. A importância econômica
de cada doença varia de ano para ano e de região para região,
dependendo das condições climáticas de cada safra.
As perdas anuais de produção por doenças são
estimadas em cerca de 15% a 20%, entretanto, algumas doenças podem
ocasionar perdas de quase 100%.
Na safra 2001/2002 uma nova doença, a ferrugem da soja causada
pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, foi detectada desde o Rio Grande
do sul até o Mato Grosso e na safra seguinte espalhou-se em praticamente
todas regiões produtoras representando uma ameaça para a
cultura em função dos prejuízos causados e do aumento
de custo de produção para seu controle.
A expansão de áreas irrigadas nos Cerrados tem possibilitado
o cultivo da soja no outono/inverno para a produção de sementes.
Esse cultivo favorece a sobrevivência dos fungos causadores da antracnose,
da ferrugem, do cancro da haste, da podridão branca da haste, da
podridão vermelha da raiz e dos nematóides de galhas e do
de cisto. Os cultivos do feijão, da ervilha, da melancia e do tomate,
que são também realizados sob irrigação na
mesma época, são afetados pela podridão branca da
haste, pela podridão radicular e mela de Rhizoctonia (R. solani)
e pelos nematóides de galhas e nematóides de cisto (feijão
e ervilha), aumentando o potencial de inóculo desses patógenos
para a safra seguinte de soja.
A maioria dos patógenos é transmitida através das
sementes e, portanto, o uso de sementes sadias ou o tratamento das sementes
é essencial para a prevenção ou a redução
das perdas. Os exemplos mais evidentes de doenças que são
disseminadas através das sementes são a antracnose (Colletotrichum
dematium var. truncata), a seca da haste e vagem (Phomopsis
spp.), a mancha púrpura da semente e o crestamento foliar de
Cercospora (Cercospora kikuchii), a mancha “olho-de-rã”
(Cercospora sojina), a mancha parda (Septoria glycines)
e o cancro da haste (Diaporthe phaseolorum f.sp. meridionalis).
O nematóide de cisto da soja (Heterodera glycines Ichinohe),
identificado pela primeira vez na Região dos Cerrados em 1991/92,
na safra 1996/97 já havia sido constatado em mais de 60 municípios
brasileiros nos estados do Rio Grande do Sul, do Paraná, de São
Paulo, de Goiás, de Minas Gerais, do Mato Grosso e do Mato Grosso
do Sul. A cada safra, diversos municípios são acrescentados
à lista de municípios atingidos, representando um grande
desafio para a pesquisa, a assistência técnica e o produtor
brasileiro de soja.
11.2. Doenças identificadas no Brasil
As seguintes doenças da soja foram identificadas no Brasil. Suas
ocorrências podem variar de esporádicas ou restritas à
incidência generalizada nacionalmente. São relacionados os
nomes comuns e seus respectivos agentes para as doenças causadas
por fungos, bactérias, vírus e nematóides. A identificação
das doenças e a avaliação das perdas geralmente exigem
treinamentos especializados.
11.2.1. Doenças fúngicas
11.2.1.1. Doenças foliares
11.2.1.2. Doenças da haste, vagem e semente
11.2.1.3. Doenças radiculares
11.2.2. Doenças bacterianas
11.2.3. Doenças causadas por vírus
11.2.4. Doenças causadas por nematóides
11.2.5. Doenças de causa não definida
11.3. Principais doenças e medidas de controle
Portanto, a convivência econômica com as doenças
depende da ação de vários fatores de um sistema integrado
de manejo da cultura.
Ferrugem (Phakopsora pachyrhizi)
A ferrugem da soja é causada por duas espécies de fungo
do gênero Phakopsora: a P. meibomiae (Arth.) Arth.,
causadora da ferrugem "americana", que ocorre naturalmente em
diversas leguminosas desde Porto Rico, no Caribe, ao sul do Estado do
Paraná (Ponta Grossa) e a P. pachyrhizi Sydow & P. Sydow, causadora
da ferrugem "asiática", presente na maioria dos países
que cultivam a soja e, a partir da safra 2000/01, também no Brasil
e no Paraguai. A distinção das duas espécies é
feita através da morfologia de teliósporos e da análise
do DNA.
Ferrugem "americana" - A ferrugem "americana"
foi identificada no Brasil, em Lavras (MG), em 1979. Sua ocorrência
é mais comum no final da safra, em soja "safrinha" (outono/inverno)
e em soja guaxa, estando restrita às áreas de clima mais
ameno. O fungo P. meibomiae raramente causa danos econômicos.
Além da soja, o fungo infecta diversas leguminosas, sendo mais
freqüentemente observada na soja perene, Neonotonia wightii
(sinon. Glycine javanica).
Ferrugem "asiática" - A ferrugem asiática
foi constatada pela primeira vez no Continente Americano no Paraguai,
em 5 de março e no Estado do Paraná, em 26 de maio de 2001.
Na safra 2001/02 apresentou grande expansão atingindo os estados
do RS, de SC, do PR, de SP, de MG, do MS, do MT e de GO. Na safra 2002/03,
foi identificada em praticamente todas as regiões produtoras de
soja. A doença é favorecida por chuvas bem distribuídas
e longos períodos de molhamento. A temperatura ótima para
o seu desenvolvimento varia entre 18o-28oC. Em condições
ótimas, as perdas na produtividade podem variar de 10% a 80%.
Sintomas - O sintoma da ferrugem "americana" difere do
da ferrugem "asiática" apenas pela predominância
da coloração castanho-avermelhada ("reddish-brown -
RB") das lesões.
Na ferrugem "asiática", as lesões das cultivares
suscetíveis são predominantemente castanho-claras ("TAN")
porém, quando em alta incidência pode causar crestamento
foliar, assemelhando ao crestamento foliar de Cercospora; em cultivares
resistentes ou tolerantes, as lesões são predominantemente
castanho-avermelhadas (RB).
Os sintomas iniciam-se nas folhas inferiores da planta e são caracterizados
por minúsculos pontos (1-2mm de diâmetro) mais escuros do
que o tecido sadio da folha, com coloração esverdeada a
cinza-esverdeada. Devido ao hábito biotrófico (nutre-se
do tecido vivo das plantas) do fungo, em cultivares suscetíveis,
as células infectadas morrem somente após ter ocorrido abundante
esporulação. Assim, as lesões não são
facilmente visíveis, no início da infecção.
Para melhor visualização das lesões nesse estádio,
deve-se tomar uma folha suspeita e olhá-la através do limbo
foliar pela face superior (adaxial), contra um fundo claro (o céu,
por exemplo). Uma vez localizado o ponto suspeito (1-2mm de diâmetro),
observar o ponto escuro pela face inferior (baxial) da folha verificando,
com uma lupa de 10x a 30x de aumento, ou sob microscópio estereoscópico,
a presença de urédias. No ponto escuro, observa-se, inicialmente,
uma minúscula protuberância, semelhante a uma ferida (bolha)
por escaldadura, sendo essa o início da formação
da estrutura de frutificação do fungo. À medida que
ocorre a morte dos tecidos infectados, as manchas aumentam de tamanho
(1-4mm) e adquirem coloração castanho-avermelhada.
Para facilitar a visualização das urédias com lupa
ou microscópio, fazer com que a luz incida com inclinação
sobre a face abaxial da folha, de modo a formar a projeção
de sombra das urédias. Esse procedimento permite a observação
das urédias, a campo, mesmo sem o auxílio de uma lupa de
bolso, ou seja, a olho-nú. Progressivamente, as urédias,
também chamadas de “pústulas”, adquirem cor castanho-clara
a castanho-escura, abrem-se por um minúsculo poro, para expelir
os uredosporos. Os uredosporos, inicialmente de coloração
hialina (cristalina), tornam-se bege e acumulam-se ao redor dos poros
ou são carregados pelo vento. O número de urédias
(ou pústulas), por ponto, pode variar de um a seis. À medida
que prossegue a esporulação, o tecido da folha ao redor
das primeiras urédias adquire coloração castanho-clara
(lesão do tipo “TAN”) a castanho-avermelhada (lesão do tipo
“reddish-brown”- RB), formando as lesões que são facilmente
visíveis em ambas as faces da folha. As urédias que deixaram
de esporular apresentam as pústulas com os poros abertos, o que
permite distinguir da pústula bacteriana, freqüente causa
de confusão.
A ferrugem pode também ser facilmente confundida com as lesões
iniciais de mancha parda (Septoria glycines Hemmi) que forma um
halo amarelo ao redor da lesão necrótica, que é angular
e castanho-avermelhada. Em ambos os casos, as folhas infectadas amarelam,
secam e caem prematuramente. A semelhança dos sintomas das doenças
de final de ciclo (mancha parda e crestamento foliar de Cercospora) com
o da ferrugem e o uso de fungicidas para controle de doenças de
final de ciclo podem ter feito com que a ferrugem não fosse identificada
em muitas lavouras e regiões onde não houve registro na
safra 2001/02. Outra doença com que a ferrugem pode ser confundida
é o crestamento bacteriano (Pseudomonas savastanoi pv. glycinea).
Uma forma de facilitar a visualização da presença
do fungo nas lesões, vistas pela face inferior da folha (abaxial),
consiste em coletar folhas suspeitas de terem a ferrugem, colocá-las
rapidamente em saco plástico, antes que murchem, e mantê-las
em incubação por um período de 12 a 24 horas sobre
a mesa de trabalho. Caso a umidade do ambiente no momento da coleta seja
muito baixa, borrifar um pouco de água sobre as folhas ou colocar
papel umedecido para mantê-las túrgidas. Não colocar
folha com excesso de umidade no saco plástico. Após o período
de incubação, observar a presença de urédias
com o auxílio de uma lente ou da luz tangente sobre a superfície
abaxial da folha.
Modo de disseminação - A disseminação
da ferrugem é feita principalmente através da dispersão
dos uredosporos pelo vento.
Efeitos
da ferrugem - A infecção por P. pachyrhizi causa
rápido amarelecimento ou bronzeamento e queda prematura das folhas,
impedindo a plena formação dos grãos. Quanto mais
cedo ocorrer a desfolha, menor será o tamanho dos grãos
e, conseqüentemente, maior a perda do rendimento e da qualidade (grãos
verdes). Em casos severos, quando a doença atinge a soja na fase
de formação das vagens ou no início da granação,
pode causar o aborto e a queda das vagens, resultando em até perda
total do rendimento. Elevadas perdas de rendimento têm sido registradas
na Austrália (80%), na Índia (90%) e em Taiwan (70%-80%).
No Brasil, os danos mais severos foram observados em Goiás (Chapadão
do Céu) e no Mato Grosso do Sul (Chapadão do Sul) ) na safra
2001/02, e na região oeste da Bahia, no Mato Grosso e Goiás
na safra 2002/03.
Manejo - O fato de ser doença de ocorrência recente
e a limitada disponibilidade de informações sobre as influências
que as condições climáticas das distintas regiões
de cultivo da soja poderão exercer sobre a severidade da doença
nas próximas safras, torna difícil fazer uma recomendação
genérica de controle que satisfaça a todas as regiões.
A doença foi constatada em praticamente todas regiões produtoras,
na safra 2002/03, e sua agressividade, nas próximas safras, vai
depender das condições climáticas favoráveis
e do estádio em que a doença se iniciar na cultura. Para
reduzir o risco de danos, sugere-se o uso de cultivares de ciclo precoce
e semeaduras no início da época recomendada, para evitar
a maior carga de esporos do fungo que irá iniciar a multiplicação
nas primeiras semeaduras. Ferrugens são classificadas com fungos
biotróficos, ou seja, necessitam do hospedeiro vivo para sobreviver
e se multiplicar. A sobrevivência da ferrugem da soja, na entre
safra, tem ocorrido em cultivos de soja sob irrigação no
inverno na região dos Cerrados (Mato Grosso e Tocantins) e na Região
Nordeste (Maranhão), mas pode também ocorrer em hospedeiros
alternativos, pois P. pachyrhizi infecta 95 espécies de
plantas em mais de 42 gêneros. O monitoramento da doença
e sua identificação nos estádios iniciais são
essenciais para a utilização eficiente do controle químico,
devendo ser realizada a vistoria freqüente da lavoura. A Tabela
11.2 apresenta os fungicidas registrados para controle, sendo alguns
produtos indicados somente como protetor (de 0% a 1% de incidência,
ou seja, de zero a uma planta com pelo menos uma lesão de ferrugem
em 100 plantas vistoriadas) e outros também como curativo (até
5% de incidência, ou seja, até cinco plantas com pelo menos
uma lesão de ferrugem em 100 plantas vistoriadas). Deve-se considerar
que a doença se inicia pelas folhas inferiores da planta, devendo
o monitoramento sempre ser realizado a partir do terço inferior
das plantas. O número e a necessidade das re-aplicações
vão ser determinados pelo estádio inicial em que for identificada
a doença na lavoura e pelo residual dos produtos. O monitoramento
das lavouras é recomendado a partir da emissão das primeiras
folhas no estádio vegetativo, uma vez que a doença pode
ocorrer em qualquer estádio fenológico da cultura, (o monitoramento
deve ser intensificado e quase diário, nas semeaduras mais tardias
e uma vez detectada a ferrugem na região). A aplicação
deve ser feita após os sintomas iniciais da doença na lavoura
e/ou na região, uma vez que o fungo se dissemina facilmente pelo
vento. A obtenção de cultivares resistentes tem sido dificultada
em função da existência de raças do fungo e
até o momento não são disponíveis cultivares
resistentes para essa doença. As reações das cultivares
à ferrugem, na Tabela 11.1, são
referentes à safra 2001/02. Para a região dos cerrados,
essa reação pode não corresponder à realidade,
em função do surgimento de uma nova raça. Na região
sul, a permanência das cultivares como resistentes (R) ou moderadamente
resistentes (MR), na safra 2003/04, dependerá da disseminação
da nova raça nessas regiões, o que só poderá
ser constatado no decorrer da safra 2003/04.
Doenças
de final de ciclo
Sob condições favoráveis, as doenças foliares
de final de ciclo, causadas por Septoria glycines (mancha parda)
e Cercospora kikuchii (crestamento foliar de Cercospora), podem
causar reduções de rendimento em mais de 20%. Ambas ocorrem
na mesma época e, devido às dificuldades para avaliá-las
individualmente, são consideradas como o “complexo de doenças
de final de ciclo”. O fungo C. kikuchii também causa a mancha
púrpura na semente, reduzindo a qualidade e a germinação.
As perdas serão maiores se forem associados aos danos causados
por outras doenças (ex. cancro da haste, antracnose, nematóides
de galhas, nematóide de cisto, podridão branca da haste).
A
incidência dessas doenças pode ser reduzida através
da integração do tratamento químico das sementes
com a incorporação dos restos culturais e a rotação
da soja com espécies não suscetíveis, como o milho
e a sucessão com o milheto. Desequilíbrios nutricionais
e baixa fertilidade do solo tornam as plantas mais susceptíveis,
podendo ocorrer severa desfolha antes mesmo de a soja atingir a meia grana
(estádio de desenvolvimento R5.4) (Tabela
11.3). A Tabela 11.4 apresenta os fungicidas
recomendados para controle. A aplicação deve ser feita entre
os estádios R5.1 e R5.5 se as condições climáticas
estiverem favoráveis à ocorrência das doenças,
isto é, chuvas freqüentes e temperaturas variando de 22o a
30oC. A ocorrência de veranico durante o ciclo da cultura reduz
a incidência, tornando desnecessária a aplicação
de fungicidas.
A
incidência dessas doenças pode ser reduzida através
da integração do tratamento químico das sementes
com a incorporação dos restos culturais e a rotação
da soja com espécies não suscetíveis, como o milho
e a sucessão com o milheto. Desequilíbrios nutricionais
e baixa fertilidade do solo tornam as plantas mais susceptíveis,
podendo ocorrer severa desfolha antes mesmo de a soja atingir a meia grana
(estádio de desenvolvimento R5.4) (Tabela
11.2). A Tabela
11.3 apresenta os fungicidas recomendados para controle. A aplicação
deve ser feita entre os estádios R5.1 e R5.5 se as condições
climáticas estiverem favoráveis à ocorrência
das doenças, isto é, chuvas freqüentes e temperaturas
variando de 22o a 30oC. A ocorrência de veranico durante o ciclo
da cultura reduz a incidência, tornando desnecessária a aplicação
de fungicidas.
Mancha "olho-de-rã" (Cercospora sojina)
Identificada pela primeira vez em 1971, a mancha "olho-de-rã"
chegou a causar grandes prejuízos na Região Sul e nos Cerrados.
No momento, está sob controle devido ao uso de cultivares resistentes
(Tabela 11.1), sendo raramente
observada. Devido à capacidade do fungo em desenvolver raças
(25 raças já foram identificadas no Brasil), é importante
que, além do uso de cultivares resistentes, haja também
a diversificação regional de cultivares, com fontes de resistência
distintas.
O uso de cultivares resistentes e o tratamento de sementes com fungicidas,
de forma sistemática, são fundamentais para o controle da
doença e para evitar a introdução do fungo ou de
uma nova raça de C. sojina em áreas onde ela não
esteja presente.
Oídio (Microsphaera diffusa)
O oídio é uma doença que, a partir da safra 1996/97,
tem apresentado severa incidência em diversas cultivares em todas
as regiões produtoras, desde os Cerrados ao Rio Grande do Sul.
As lavouras mais atingidas podem ter perdas de rendimento de até
40%.
Esse fungo infecta diversas espécies de leguminosas. É um
parasita obrigatório que se desenvolve em toda a parte aérea
da soja, como folhas, hastes, pecíolos e vagens (raramente observada).
O sintoma é expresso pela presença do fungo nas partes atacadas
e por uma cobertura representada por uma fina camada de micélio
e esporos (conídios) pulverulentos que podem ser pequenos pontos
brancos ou cobrir toda a parte aérea da planta, com menor severidade
nas vagens. Nas folhas, com o passar dos dias, a coloração
branca do fungo muda para castanho-acinzentada, dando a aparência
de sujeira em ambas as faces. Sob condição de infecção
severa, a cobertura de micélio e a frutificação do
fungo, além do dano direto ao tecido das plantas, diminue a fotossíntese.
As folhas secam e caem prematuramente, dando à lavoura aparência
de soja dessecada por herbicida, ficando com uma coloração
castanho-acinzentada a bronzeada. Na haste e nos pecíolos, as estruturas
do fungo adquirem coloração que varia de branca a bege,
contrastando com a epiderme da planta, que adquire coloração
arroxeada a negra. Em situação severa e em cultivares altamente
suscetíveis, a colonização das células da
epiderme das hastes impede a expansão do tecido cortical e, simultaneamente,
causa o engrossamento do lenho, rachadura das hastes e cicatrizes superficiais.
A infecção pode ocorrer em qualquer estádio de desenvolvimento
da planta, porém, é mais visível por ocasião
do início da floração. Quanto mais cedo iniciar a
infecção, maior será o efeito da doença sobre
o rendimento. Baixa umidade relativa do ar e temperaturas amenas, que
ocorrem durante a entressafra, são altamente favoráveis
ao desenvolvimento do oídio.
As reações das cultivares indicadas no Brasil estão
apresentadas na Tabela 11.1. Houve grande
variação na reação de algumas cultivares entre
as localidades onde foram feitas as avaliações. Essas variações
podem indicar a existência de variabilidade (raças fisiológicas)
entre as populações do fungo de diferentes localidades.
O método mais eficiente de controle do oídio é através
do uso de cultivares resistentes. Devem ser utilizadas as cultivares que
sejam resistentes (R) a moderadamente resistentes (MR) ao fungo. Outra
forma de evitar perdas por oídio é não semear cultivares
suscetíveis nas épocas mais favoráveis à ocorrência
da doença, tais como semeaduras tardias ou safrinha e cultivo sob
irrigação no inverno. O controle químico, através
da aplicação de fungicidas foliares (Tabela
11.5) poderá ser utilizado. Para o controle de oídio
nos estádios iniciais indica-se usar preferencialmente o enxofre
(2 kg i.a./ha). O momento da aplicação depende do nível
de infecção e do estádio de desenvolvimento da soja.
A aplicação deve ser feita quando o nível de infecção
atingir de 40% a 50% da área foliar da planta como um todo.
Mela
da soja (Rhizoctonia solani AG1)
A
“mela da soja” ocorre principalmente nos estados do Mato Grosso, do Maranhão,
de Tocantins e de Roraima, causando reduções médias
de produtividade de 30%, podendo chegar a 60%, em situações
de extrema favorabilidade climática.
A doença se desenvolve bem em condições de temperatura
entre 25ºC e 30°C e umidade relativa do ar acima de 80%. Condição
de clima chuvoso e a freqüência e a distribuição
das chuvas durante o ciclo da cultura são fatores determinantes
para o desenvolvimento da doença. O fungo sobrevive no solo através
de escleródios, saprofiticamente em restos de cultura e em hospedeiros
alternativos ou eventuais. A disseminação a partir do inóculo
primário ocorre principalmente através de respingos de chuva,
carreando fragmentos de micélio ou escleródios para as folhas
e pecíolos de plantas jovens, antes do fechamento das entrelinhas
na lavoura. Inóculo secundário é formado pelo crescimento
micelial e pela formação de microescleródios, com
disseminação por contato de folha com folha ou de planta
com planta.
Toda a parte aérea da planta é afetada, principalmente as
folhas do terço médio, surgindo inicialmente lesões
encharcadas, de coloração pardo-avermelhada a roxa, evoluindo
rapidamente para marrom-escura a preta. As lesões podem ser pequenas
manchas ou tomar todo o limbo foliar, em forma de murcha ou podridão
mole. Folhas infectadas normalmente ficam aderidas a outras folhas ou
hastes através do micélio do fungo que, rapidamente, se
dissemina para tecidos sadios. Em condições favoráveis,
ocorre desenvolvimento micelial do patógeno sobre a planta. Sob
baixa umidade, as lesões ficam restritas a manchas necróticas
marrons. Nas hastes, nos pecíolos e nas vagens, normalmente aparecem
manchas castanho-avermelhadas. Em vagens novas, flores e rácemos
florais pode ocorrer completa podridão e, em condições
favoráveis é comum haver abundante produção
de microescleródios nos tecidos infectados,. As infecções
podem ocorrer em qualquer estádio da cultura.
No Brasil, a doença é causada, predominantemente, pelo subgrupo
IA do grupo 1 de anastomose (AG1) de R. solani (AG1-IA), podendo ocorrer
o AG1-IB, em Roraima.
O controle da “mela da soja” é mais eficiente quando se adotam
medidas integradas, envolvendo práticas como semeadura direta,
nutrição equilibrada das plantas (principalmente K, S, Zn,
Cu e Mn), rotação de culturas não hospedeiras, redução
da população de plantas, eliminação de plantas
daninhas e restevas de soja e controle químico. Não há
fungicidas registrados no MARA para controle da doença. Experimentalmente,
foi observada a eficiência de controle com os fungicidas azoxystrobin
(50g a 75g i.a./ha), metconazole (90g i.a./ha), pyraclostrobin + epoxiconazole
(79,8g a 99,75g + 30g a 37,5g i.a./ha) e trifloxystrobin + ciproconazole
(74,8g + 32g i.a./ha). A utilização de cobertura morta do
solo, através do sistema de semeadura direta, é uma das
medidas que tem se mostrado mais eficiente, por evitar os respingos de
chuva que levam os propágulos do fungo para as folhas e hastes.
Não há cultivares resistentes.
Cancro da haste (Diaporthe phaseolorum f.sp.
meridionalis; Phomopsis phaseoli f.sp. meridionalis)
Identificado pela primeira vez na safra 1988/89, no sul do
Estado do Paraná e em área restrita no Mato Grosso, na safra
seguinte foi encontrado em todas as regiões produtoras de soja
do País, tendo, até a safra 96/97, causado, ao nível
nacional, perda estimada em US$ 0,5 bilhão. Uma vez introduzido
na lavoura através de sementes e de resíduos contaminados
em máquinas e implementos agrícolas, o fungo multiplica-se
nas primeiras plantas infectadas e, posteriormente, durante a entressafra,
nos restos de cultura. Iniciando com poucas plantas infectadas no primeiro
ano, o cancro da haste pode causar perda total, na safra seguinte.
O fungo é altamente dependente de chuvas para disseminar os esporos
dos restos de cultura para as plântulas em desenvolvimento. Quanto
mais freqüentes forem as chuvas nos primeiros 40 a 50 dias após
a semeadura, maior a quantidade de esporos do fungo que serão liberados
dos restos de cultura e atingirão as hastes das plantas. Após
esse período, a soja estará suficientemente desenvolvida
e a folhagem estará protegendo o solo e os restos de cultura do
impacto das chuvas, portanto, liberando menos inóculo.
Além das condições climáticas, os níveis
de danos causados à soja dependem da suscetibilidade, do ciclo
da cultivar e do momento em que ocorrer a infecção. Como
o cancro da haste é uma doença de desenvolvimento lento
(demora de 50 a 80 dias para matar a planta), quanto mais cedo ocorrer
a infecção e quanto mais longo for o ciclo da cultivar,
maiores serão os danos. Nas cultivares mais suscetíveis,
o desenvolvimento da doença é mais rápido, podendo
causar perda total. Nas infecções tardias (após 50
dias da semeadura) e em cultivares mais resistentes, haverá menos
plantas mortas, com a maioria afetada parcialmente.
O controle da doença exige a integração de todas
as medidas capazes de reduzir o potencial de inóculo do patógeno
na lavoura: uso de cultivares resistentes, tratamento de semente, rotação/sucessão
de culturas, manejo do solo com a incorporação dos restos
culturais, escalonamento de épocas de semeadura, e adubação
equilibrada. Só utilizar guandu ou tremoço como adubo verde
antes da cultura da soja na certeza de utilizar cultivar de soja resistente.
O uso de cultivar resistente é a forma mais econômica e eficiente
de controle do cancro da haste. Na Tabela 11.1,
estão apresentadas as reações ao cancro da haste
das cultivares comerciais, para os estados abrangidos por esta publicação.
Em áreas de semeadura direta, mesmo com histórico de cancro
da haste na safra anterior, o uso de cultivares resistentes oferecerá
bons rendimentos.
Antracnose (Colletotrichum dematium var.
truncata)
A antracnose é uma das principais doenças da soja nas regiões
dos Cerrados. Sob condições de alta umidade, causa apodrecimento
e queda das vagens, abertura das vagens imaturas e germinação
dos grãos em formação. Pode causar perda total da
produção mas, com maior freqüência, causa alta
redução do número de vagens e induz a planta à
retenção foliar e haste verde. Geralmente, está associada
com a ocorrência de diferentes espécies de Phomopsis, que
causam a seca da vagem e da haste. Além das vagens, o Colletotrichum
dematium var. truncata infecta a haste e outras partes da planta, causando
manchas castanho escuras. É também possível que seja
uma das principais causadoras da necrose da base do pecíolo que,
nos últimos anos, tem sido responsável por severas perdas
de soja nos Cerrados e cuja etiologia ainda não está esclarecida.
Em anos com período prolongado de chuvas, após a semeadura
direta da soja, sobre a palha do trigo, em solo compactado, é comum
a morte de plântulas nos primeiros trinta dias. Em alguns casos,
é necessária a ressemeadura.
A alta intensidade da antracnose nas lavouras dos Cerrados é atribuída
à maior precipitação e às altas temperaturas,
porém, outros fatores como o excesso de população
de plantas, cultivo contínuo da soja, estreitamento nas entrelinhas
(35-43 cm), uso de sementes infectadas, infestação e dano
por percevejo e deficiências nutricionais, principalmente de potássio,
são também responsáveis pela maior incidência
da doença.
A redução da incidência de antracnose, nas condições
dos Cerrados, só será possível através de
rotação de culturas, maior espaçamento entre as linhas
(50 a 55 cm), população adequada (250.000 a 300.000 plantas/ha),
tratamento químico de semente e manejo adequado do solo, principalmente,
com relação à adubação potássica.
Observações a campo têm mostrado que, sob semeadura
direta e em áreas com cobertura morta, a incidência de antracnose
é menos severa. O manejo da população de percevejo
é também importante na redução de danos por
antracnose.
Seca da haste e da vagem (Phomopsis spp.)
É uma das doenças mais tradicionais da soja e,
anualmente, junto com a antracnose, é responsável pelo descarte
de grande número de lotes de sementes. Seu maior dano é
observado em anos quentes e chuvosos, nos estádios iniciais de
formação das vagens e na maturação, quando
ocorre o retardamento de colheita por excesso de umidade. Em solos com
deficiência de potássio, o fungo causa sério abortamento
de vagens, geralmente associado com a antracnose, resultando em haste
verde e retenção foliar. Cultivares precoces com maturação
no período chuvoso são severamente danificadas.
Sementes armazenadas sob condições de temperaturas amenas,
durante a entressafra, mantêm por mais tempo a viabilidade de Phomopsis
sojae e de Phomopsis spp. Sementes superficialmente infectadas por Phomopsis
spp., quando semeadas em solo úmido, geralmente emergem, porém,
o fungo desenvolvido no tegumento impede que os cotilédones se
abram e não permite que as folhas primárias se desenvolvam.
O tratamento da semente com fungicida resolve o problema.
Para o controle da seca da haste e da vagem, devem ser seguidas as mesmas
indicações para a antracnose.
Mancha alvo e podridão da raiz (Corynespora
cassiicola)
Surtos severos têm sido observados esporadicamente, desde as zonas
mais frias do Sul às chapadas dos Cerrados. Cultivares suscetíveis
podem sofrer completa desfolha prematura, apodrecimento das vagens e intensas
manchas nas hastes. Através da infecção na vagem,
o fungo atinge a semente e, desse modo, pode ser disseminado para outras
áreas. A infecção, na região da sutura das
vagens em desenvolvimento, pode resultar em necrose, abertura das vagens
e germinação ou apodrecimento dos grãos ainda verdes.
A podridão de raiz causada pelo fungo C. cassiicola é
também comum, principalmente em áreas de semeadura direta.
Todavia, severas infecções em folhas, vagens e hastes, geralmente
não estão associadas com a correspondente podridão
de raiz. Mais estudos são necessários para esclarecer se
a espécie do fungo que causa a mancha foliar é a mesma que
infecta o sistema radicular. A podridão de raiz é mais freqüente
e está aumentando com a expansão das áreas em semeadura
direta.
Na Tabela 11.1, são
apresentadas as reações das cultivares à mancha alvo
baseadas em avaliações a campo e em casa-de-vegetação,
com inoculações artificiais.
Podridão parda da haste (Phialophora gregata)
Na safra 1988/89, a doença foi constatada pela primeira
vez em Passo Fundo (RS) e municípios vizinhos com morte de até
100% das plantas em algumas lavouras. Na safra 1991/92, além da
reincidência severa no Rio Grande do Sul, a doença foi constatada
também na região de Chapecó, em Santa Catarina.
A doença é de desenvolvimento lento, matando as plantas
na fase de enchimento de grãos. O sintoma característico
é o escurecimento castanho escuro a arroxeado da medula, em toda
a extensão da haste e seguida de murcha, amarelecimento das folhas
e freqüente necrose entre as nervuras das folhas, caracterizando
a folha "carijó". Essa doença não produz
sintoma externo na haste.
Observações preliminares têm indicado a existência
de cultivares comerciais com alto grau de resistência na Região
Sul. As experiências com a doença nos Estados Unidos, onde
o problema é importante e tem exigido grandes e prolongados investimentos,
indica que esse será mais um desafio para a produção
de soja no Brasil. A doença ainda não foi constatada na
Região Central do Brasil, estando restrita aos estados do Rio Grande
do Sul, Santa Catarina e Paraná; os planaltos dos Cerrados, acima
de 800 metros de altitude, podem oferecer condições para
o desenvolvimento da podridão parda. Para evitar a introdução
da doença no Cerrado será necessária a adoção
de medidas preventivas, como o tratamento com fungicidas das sementes
introduzidas daqueles três estados e a limpeza completa dos caminhões,
máquinas e implementos agrícolas que se movimentam daquela
região para a Região dos Cerrados, nas épocas de
semeadura e colheita.
Em áreas afetadas indica-se a rotação com milho ou
a semeadura de cultivares de soja que não tenham sido afetadas
na região.
Podridão vermelha da raiz (PVR) (Fusarium
solani f.sp. glycines)
Essa doença foi observada pela primeira vez na safra 1981/82, em
São Gotardo (MG). A partir da safra 96/97, ela está presente
desde o Maranhão ao Rio Grande do Sul, sendo os estados do Rio
Grande do Sul, de Santa Catarina, do Paraná, do Mato Grosso, do
Mato Grosso do Sul, de Goiás e de Minas Gerais os mais afetados.
A podridão vermelha da raiz (PVR) ocorre em reboleiras ou de forma
generalizada na lavoura.
O sintoma de infecção na raiz inicia com uma mancha avermelhada,
mais visível na raiz principal, geralmente localizada um a dois
centímetros abaixo do nível do solo. Essa mancha se expande,
circunda a raiz e passa da coloração vermelho arroxeada
para castanho-avermelhada a quase negra. Essa necrose acentuada localiza-se
mais no tecido cortical, enquanto que o lenho da raiz adquire coloração,
no máximo, castanho-clara, estendendo-se pelo tecido lenhoso da
haste a vários centímetros acima do nível do solo.
Nessa fase, observa-se, na parte aérea, o amarelecimento prematuro
das folhas e, com maior freqüência, uma acentuada necrose entre
as nervuras das folhas, resultando no sintoma conhecido como folha "carijó".
Informações disponíveis até o momento indicam
que, com exceção de cultivares resistentes, nenhuma prática
agronômica tem sido adequada para reduzir o impacto da doença.
A rotação de cultura com o milho ou a cobertura com milheto
não controla a doença. Além disso, safras chuvosas
e semeadura direta favorecem a incidência da doença.
Podridão
de carvão (Macrophomina phaseolina)
M.
phaseolina é uma espécie polífaga, capaz de infectar
inúmeras espécies botânicas. A podridão de
carvão é a doença radicular mais comumente encontrada
nas áreas cultivadas com soja. Os danos são variáveis
com o ano, sendo mais severos em anos secos. Nas lavouras onde o preparo
do solo não é adequado, permitindo a formação
do pé-de-grade, as plantas desenvolvem sistema radicular mais superficial,
não suportando veranicos. A infecção das raízes
pode ocorrer desde o início da germinação visto que
o patógeno pode ser transmitido por sementes e é um habitante
natural dos solos. Lesões no colo da planta são de coloração
marrom-avermelhada e superficiais, diferindo daquelas causadas por Rhizoctonia
solani que são profundas Radículas infectadas apresentam
escurecimento. A evolução da infecção é
facilitada por condições de deficit hídrico do solo,
quando as plantas apresentam fraco desenvolvimento e as folhas ficam cloróticas.
Após o florescimento e ocorrendo deficit hídrico,
as folhas tornam-se inicialmente cloróticas, secam e adquirem coloração
marrom, permanecendo aderidas aos pecíolos. Nessa fase, as plantas
apresentam raízes de cor cinza, cuja epiderme é facilmente
destacada, mostrando massa de microesclerócios negros, nos tecidos
imediatamente abaixo.
A formação de picnídios não ocorre em todos
os hospedeiros, mas foi descrita em soja, feijão e juta. Os picnídios
são globosos e negros.
Em tecidos infectados, o fungo produz microesclerócios, os quais
são a principal fonte de inóculo. Os microesclerócios
são estruturas multicelulares, duras e resistentes às condições
adversas. A longevidade tende a diminuir com o tempo no solo. Em solos
úmidos a sobrevivência é reduzida, devido à
baixa oxigenação do solo. Baixo potencial hídrico
aumenta a suscetibilidade das plantas e reduz a atividade de microrganismos
antagônicos.
Devido à ação polífaga do fungo a rotação
de culturas é uma medida de controle duvidoso. Há relatos
de que isolados de milho são menos agressivos à soja. Níveis
adequados de P e K auxiliam o desenvolvimento e a resistência das
plantas. Adequada cobertura do solo com restos de cultura, acompanhada
de bons manejos físico e químico do solo, mostrou-se eficaz,
por reduzir o estresse hídrico, diminuindo a predisposição
das plantas ao ataque de M. phaseolina.
Podridão
da raiz e da base da haste (Rhizoctonia solani)
Essa doença foi constatada pela primeira vez na safra
1987/88, em Ponta Porã (MS), em Rondonópolis (MT) e em São
Gotardo (MG). Na safra 1989/90, foi constatada em Campo Novo dos Parecis,
Mato Grosso, em ocorrência esporádica.
Na safra 1990/91, foi constatada em Lucas do Rio Verde, Campo Verde e
em Alto Garça, Mato Grosso e em Chapadão do Sul, Mato Grosso
do Sul.
A incidência da doença variou de algumas plantas mortas a
extensas reboleiras, onde se misturavam plantas mortas e plantas sem sintomas.
A morte das plantas começa a ocorrer a partir da fase inicial de
desenvolvimento das vagens. A ocorrência da doença, até
o momento, está restrita à região dos Cerrados associada
a anos de intensa precipitação.
O sintoma inicia-se por podridão castanha e aquosa da haste, próximo
ao nível do solo e estende-se para baixo e para cima, assemelhando
muito com a podridão de Phytophthora. Em fase posterior,
o sistema radicular adquire coloração castanho escura, o
tecido cortical fica mole e solta-se com facilidade, expondo um lenho
firme e de coloração branca a castanho-clara. Na parte superior,
as plantas infectadas apresentam clorose, as folhas murcham e ficam pendentes
ao longo da haste. Na parte inferior da haste principal, a podridão
evolui, atingindo vários centímetros acima do nível
do solo. Inicialmente, de coloração castanho clara e de
aspecto aquoso, a lesão torna-se, posteriormente, negra. A área
necrosada, geralmente, apresenta ligeiro afinamento em relação
à parte superior. O tecido cortical necrosado destaca-se com facilidade,
dando a impressão de podridão superficial. Outro sintoma
observado é a formação de uma espécie de cancro,
em um dos lados da base da haste, com a parte afetada deprimida, estendendo-se
a vários centímetros acima do nível do solo.
Crestamento bacteriano da soja (Pseudomonas
savastanoi pv. glycinea)
A doença é comum em folhas, mas pode ser encontrada em outros
órgãos da planta, como hastes, pecíolos e vagens.
Os sintomas nas folhas surgem como pequenas manchas, de aparência
translúcida circundadas por um halo de coloração
verde-amarelada. Essas manchas, mais tarde, necrosam, com contornos aproximadamente
angulares, e coalescem, formando extensas áreas de tecido morto,
entre as nervuras secundárias. A maior ou menor largura do halo
está diretamente ligada à temperatura ambiente (largo sob
temperaturas amenas ou estreito ou quase inexistente sob temperaturas
mais altas).
Na face inferior da folha, as manchas são de coloração
quase negra apresentando uma película brilhante nas horas úmidas
da manhã, formada pelo exudato da bactéria. Infecções
severas, nos estádios jovens da planta, conferem aparência
enrugada às folhas, como se houvessem sido infectadas por vírus.
A bactéria está presente em todas as áreas cultivadas
com soja no País. A infecção primária pode
ter origem em duas fontes: sementes infectadas e restos infectados de
cultura anterior. Transmissões secundárias, das plantas
doentes para as sadias, são favorecidas por períodos úmidos
e temperaturas médias amenas (20º a 26ºC). Dias secos
permitem que finas escamas do exudato da bactéria se disseminem
dentro da lavoura, mas, para haver infecção o patógeno
necessita de um filme de água na superfície da folha. Já
foram descritas oito raças fisiológicas deste patógeno
no Brasil: R2, R3, R4, R6, R7 (também descritas, anteriormente,
nos Estados Unidos) e R10, R11 e R12 (raças novas); a mais comum
é a raça R3.
Como controle, indica-se o uso de cultivares resistentes (Tabela
11.1), o uso de semente proveniente de lavoura indene e/ou aração
profunda para cobrir os restos da cultura anterior, logo após a
colheita.
Mosaico comum da soja (vírus do mosaico
comum da soja - VMCS)
O VMCS causa redução do porte das plantas de soja, afetando
o tamanho e o formato dos folíolos, com escurecimento da coloração
e enrugamentos. Em alguns casos, há formação de bolhas
no limbo foliar. O VMCS causa também redução do tamanho
das vagens e sementes e prolongamento do ciclo vegetativo, com sintoma
característico de haste verde.
Pode causar o sintoma “mancha café” nas sementes, um derramamento
do pigmento do hilo. O vírus se transmite pela semente, no entanto,
a porcentagem de transmissão depende da estirpe do vírus
e da cultivar de soja. As taxas de transmissão das estirpes comuns,
na maioria das cultivares de soja suscetíveis, têm sido menores
do que 5%. O VMCS dissemina-se no campo através dos pulgões.
Embora nenhuma espécie de pulgão seja parasita da soja no
Brasil, as picadas de prova permitem que o vírus seja disseminado
a partir das sementes de plantas infectadas.
O controle desta virose tem sido obtido pelo uso de cultivares resistentes
(Tabela 11.1).
Necrose
da haste da soja (vírus da necrose da haste= Cowpea mild mottle
virus)
O
vírus da necrose da haste da soja (VNHS) foi inicialmente identificado
no sudoeste de Goiás, na safra 2000/01. Atualmente, já foi
diagnosticado em lavouras do MT, da BA, do MA e recentemente, do PR. As
plantas de soja atacadas pelo vírus, na fase inicial da lavoura,
apresentam curvatura e queima do broto, podendo morrer ou originar plantas
anãs, com folhas deformadas. Quando a infecção é
mais tardia, nem todas as plantas morrem, mas há redução
do número de vagens formadas, as quais podem apresentar pequenas
lesões superficiais circulares e escuras ou lesões que cobrem
toda a vagem. Corte longitudinal da haste mostra escurecimento da medula.
Esse escurecimento pode ser leve ou severo. As sementes podem ter seu
tamanho reduzido. As plantas desenvolvem a necrose da haste, principalmente,
após a floração. As folhas localizadas nos nós
inferiores da planta apresentam aspecto de mosaico, com diferentes tonalidades
de verde, variando desde o esmaecido ao verde normal das folhas, e facilitam
o diagnóstico no campo. As cultivares suscetíveis podem
apresentar perda total da produção. O vírus é
transmitido pela mosca branca. No entanto, devido ao grande fluxo dos
insetos nas lavouras, o controle químico é insatisfatório.
A incidência de plantas mortas depende da população
de mosca branca e da presença de plantas hospedeiras. Ainda não
são conhecidas as espécies vegetais onde o vírus
se mantém, na entre-safra.
O vírus não se transmite pelas sementes, em testes com cultivares
suscetíveis. O controle pode ser obtido com o cultivo de cultivares
resistentes (Tabela 11.1). Algumas cultivares,
denominadas desuniformes, apresentam até 15% de plantas suscetíveis.
Mas essa incidência não causou perdas significativas no campo.
Nematóides de galhas (Meloidogyne
spp.)
No Brasil, as espécies Meloidogyne javanica e
M. incognita de nematóides formadores de galhas destacam-se
pelos danos que causam à soja. Elas têm sido constatadas
com maior freqüência no norte do Rio Grande do Sul, sudoeste
e norte do Paraná, sul e norte de São Paulo e sul do Triângulo
Mineiro. Na região Central do Brasil, o problema é crescente,
com severos danos em lavouras do Mato Grosso do Sul e Goiás.
Nas áreas onde ocorrem, observam-se manchas em reboleiras nas lavouras,
onde as plantas de soja ficam pequenas e amareladas. As folhas das plantas
afetadas normalmente apresentam manchas cloróticas ou necroses
entre as nervuras, caracterizando a folha "carijó". Às
vezes, pode não ocorrer redução no tamanho das plantas,
mas, por oca sião do florescimento, nota-se intenso abortamento
de vagens e amadurecimento prematuro das plantas atacadas. Em anos em
que acontecem "veranicos", na fase de enchimento de grãos,
os danos tendem a ser maiores. Nas raízes das plantas atacadas
observam-se galhas em números e tamanhos variados, dependendo da
suscetibilidade da cultivar de soja e da densidade populacional do nematóide.
Para culturas de ciclo curto como a soja, todas as medidas de controle
devem ser executadas antes da semeadura. Ao constatar que uma lavoura
de soja está atacada, o produtor nada poderá fazer naquela
safra. Todas as observações e todos os cuidados deverão
estar voltados para os próximos cultivos na área. O primeiro
passo é a identificação correta da espécie
de Meloidogyne predominante na área. Amostras de solo e
raízes de soja com galhas devem ser coletadas em pontos diferentes
da reboleira, até formar uma amostra composta de cerca de 500 g
de solo e pelo menos uns cinco sistemas radiculares de soja. A amostra,
acompanhada do histórico da área, deve ser encaminhada,
o mais rapidamente possível, a um laboratório de Nematologia.
A partir do conhecimento da espécie de Meloidogyne é
que se poderá montar um programa de manejo.
O controle dos nematóides de galha pode ser obtido com a rotação/sucessão
de culturas e adubação verde, com espécies não
hospedeiras. O cultivo prévio de espécies hospedeiras aumenta
os danos na soja que as sucedem. Em áreas infestadas por M. javanica,
indica-se a rotação da soja com amendoim, algodão,
sorgo resistente (AG 2005-E, AG 2501-C), mamona ou milho resistente. Das
cultivares de milho comercializadas atualmente no Brasil, Hatã
1001, AG 519, AG 612, AG 5016, AG 3010, AG 6018, AG 5011, AG X6690, BR
3123, C 606, C 491W, C 855, C 929, C 806, C 505, C 447, C 125, C 747,
C 901, C 956, Tork, Master, Exceler, Traktor, Premium, Avant, Dominium,
Flash, P X1297J, P 30F33, P 30F80, P X1297H, P 32R21, P 3027, P 3081,
P 3071, XL 357, XL 215, XL 255, XL 355, XL 221, XL 344, CD 3121, A 2288,
A 2555, P 30F88, BRS 2114, BRS 2160, AG9090, AG9020, NB5218, NB7228, 84E60
e 84E80 apresentam resistência (FR<1) a M. javanica. Quando
M. incognita for a espécie predominante na área, poderão
ser semeados o amendoim ou milho resistente (P 30F80, BRS 2114 e AG 9090).
A adubação verde com Crotalaria spectabilis, C.
grantiana, C. mucronata, C. paulinea, mucuna preta,
mucuna cinza ou nabo forrageiro também contribui para a redução
populacional de M. javanica e de M. incognita. Os nematóides
de galha se reproduzem bem na maioria das plantas invasoras. Assim, indica-se
também o controle sistemático dessas plantas nos focos do
nematóide.
A utilização de cultivares de soja resistentes aos nematóides
de galha é o meio de controle mais eficiente e mais adequado para
o agricultor. Na Tabela 11.1 é apresentada
a reação das cultivares mais utilizadas no Brasil.
Nematóide
de cisto da soja (Heterodera glycines)
O nematóide de cisto da soja (NCS) é uma das principais
pragas da cultura pelos prejuízos que pode causar e pela facilidade
de disseminação. Ele penetra nas raízes da planta
de soja e dificulta a absorção de água e nutrientes
condicionando porte e número de vagens reduzidos, clorose e baixa
produtividade. Os sintomas aparecem em reboleiras e, em muitos casos,
as plantas acabam morrendo. O sistema radicular fica reduzido e infestado
por minúsculas fêmeas do nematóide com formato de
limão ligeiramente alongado. Inicialmente de coloração
branca, a fêmea, posteriormente, adquire a coloração
amarela. Após ser fertilizada pelo macho, cada fêmea produz
de 100 a 250 ovos, armazenando a maior parte deles em seu corpo. Quando
a fêmea morre, seu corpo se transforma em uma estrutura dura denominada
cisto, de coloração marrom escura, cheia de ovos, altamente
resistente à deterioração e à dessecação
e muito leve, que se desprende da raiz e fica no solo.
O cisto pode sobreviver no solo, na ausência de planta hospedeira,
por mais de oito anos. Assim, é praticamente impossível
eliminar o nematóide nas áreas onde ele ocorre. Em solo
úmido, com temperaturas de 20o a 30oC, as larvas eclodem e, se
encontrarem a raiz de uma planta hospedeira, penetram e o ciclo se completa
em três a quatro semanas. A gama de espécies hospedeiras
do NCS é limitada, destacando-se a soja (Glycine max), o
feijão (Phaseolus vulgaris), a ervilha (Pisum sativum)
e o tremoço (Lupinus albus). A maioria das espécies
cultivadas, tais como milho, sorgo, arroz, algodão, girassol, mamona,
cana-de-açúcar, trigo, assim como as demais gramíneas,
são resistentes. O NCS não se reproduz nas plantas daninhas
mais comuns nas lavouras de soja, no Brasil.
As estratégias de controle incluem a rotação de culturas,
o manejo do solo e a utilização de cultivares de soja resistentes,
sendo ideal a combinação dos três métodos.
O uso de cultivares resistentes é o método mais econômico
e mais eficiente, porém, seu uso exclusivo pode provocar pressão
de seleção de raças, devido à grande variabilidade
genética desse parasita.
Detectado no Brasil, pela primeira vez, na safra 1991/92, atualmente,
estima-se que a área com o nematóide seja superior a 2,0
milhões de ha. Entretanto, existem muitas propriedades isentas
do patógeno, localizadas em municípios considerados infestados.
Assim, a prevenção deve ser, ainda, a principal estratégia.
A disseminação do NCS se dá, principalmente, pelo
transporte de solo infestado. Isso pode ocorrer através dos equipamentos
agrícolas, das sementes mal beneficiadas que contenham partículas
de solo, pelo vento, pela água e até por pássaros
que, ao coletar alimentos do solo, podem ingerir junto os cistos. É
importante a conscientização dos produtores sobre a necessidade
de se fazer boa limpeza nos equipamentos agrícolas, após
terem sido utilizados em outras áreas, para evitar a contaminação
da propriedade. O trânsito de máquinas, equipamentos e veículos
tem sido o principal agente de dispersão do NCS no País.
O cultivo de gramíneas perenes (pastagens ou outras) numa pequena
faixa de cada lado da estrada pode retardar a introdução
do NCS nas lavouras próximas à estrada. A aquisição
de sementes beneficiadas, isentas de partículas de solo, também
é fundamental para evitar a entrada do nematóide. Atualmente,
o Ministério da Agricultura, da Pecuária e Abastecimento
permite a comercialização de sementes de soja produzidas
em áreas infestadas, desde que sejam submetidas a determinada seqüência
de beneficamento e que sejam acompanhadas por laudo atestando a isenção
da presença de cistos. A distribuição desuniforme
de cistos no lote de sementes e o tamanho do lote dificultam a obtenção
de amostras representativas, o que torna o resultado da análise
de valor questionável. Dentro da propriedade, a disseminação
do NCS pode ser reduzida pela adoção da semeadura direta.
As cultivares de soja resistentes ao NCS já estão disponíveis
e são apresentados na Tabela 11.1. No Brasil, já foram encontradas
11 raças, demonstrando elevada variabilidade genética do
nematóide no País. Portanto, mesmo com a utilização
de cultivares resistentes, os sojicultores terão que continuar
fazendo rotação de culturas nas áreas infestadas.
Isso evitará que o nematóide mude de raça e, assim,
a resistência dessas novas cultivares às raças 1 e
3, predominantes nas áreas cultivadas, estará preservada.
Um sistema de rotação, que envolva culturas não hospedeiras,
cultivar suscetível e cultivar resistente deverá ser adotado,
por exemplo, milho-soja resistente-soja susceptível. A rotação
da soja com uma espécie não hospedeira, no verão,
é o método que vem possibilitando a produção
de soja nas áreas infestadas. O milho tem sido a espécie
mais utilizada na rotação com a soja. O algodão,
o arroz, a mamona, o girassol e a cana, desde que economicamente viáveis,
também são boas opções. De modo geral, a substituição
da soja, um ano, por uma espécie não hospedeira, proporciona
uma redução da população do NCS no solo suficiente
para garantir o cultivo da soja por mais um ano, devendo-se continuar
a rotação na seqüência, pois a população
volta a crescer a níveis de risco. No caso de cultivo de verão
por dois ou mais anos consecutivos com espécie não hospedeira,
pode-se cultivar soja na área nos dois anos seguintes, sem risco
de perda pelo NCS, se o pH do solo estiver nos níveis indicados
para a região. Nesse caso, por medida de segurança, indica-se
providenciar avaliação da população do nematóide
no solo antes do segundo cultivo de soja. Com relação ao
cultivo de inverno, em áreas infestadas pelo NCS, indica-se utilizar
apenas as espécies não hospedeiras (gramíneas, crucíferas,
girassol, mucunas, etc.). O cultivo de espécies hospedeiras no
inverno, tais como soja, feijão, tremoço e ervilha permitirá
que a população do nematóide se mantenha alta. O
NCS reproduz-se na soja germinada a partir de grãos perdidos na
colheita (soja “guaxa” ou “tiguera”), aumentando o inóculo para
a próxima safra. Portanto, não deve ser permitida a presença
de “tiguera” em áreas infestadas.
O manejo adequado do solo (níveis mais altos de matéria
orgânica, saturação de bases dentro do indicado para
a região, parcelamento do potássio em solos arenosos, adubação
equilibrada, suplementação com micronutrientes e ausência
de camadas compactadas) ajuda a aumentar a tolerância da soja ao
nematóide.
11.4. Manuseio de fungicidas e descarte de embalagem
* Utilizar fungicidas devidamente registrados no Ministério da
Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), para uso na cultura
da soja e para a doença ou patógeno que deseja controlar.
O número do registro consta no rótulo do produto.
* Usar equipamento de proteção individual (EPI) apropriado,
em todas as etapas de manuseio de agrotóxicos (abastecimento do
pulverizador, aplicação e lavagem de equipamentos e embalagens),
a fim de evitar possíveis intoxicações.
* Não fazer mistura em tanque, de dois fungidas, ou de fungicida
(s) com outro (s) agrotóxico (s), procedimento proibido por lei
(Instrução Normativa do MAPA nº 46, de julho de 2002).
* Evitar aplicações em dias ou em horários com ventos
fortes, visando reduzir a deriva dos jatos, tornando mais eficiente a
aplicação e reduzindo possíveis contaminações
de áreas vizinhas.
* Observar o período de carência do produto (período
compreendido entre a data da aplicação e a colheita da soja).
* Ler com atenção o rótulo e a bula do produto e
seguir todas as orientações e os cuidados com o descarte
das embalagens.
* Devolver as embalagens vazias (após a tríplice lavagem
das embalagens de produtos líquidos), no prazo de um ano após
a compra do produto, ao posto de recebimento indicado na nota fiscal de
compra, conforme legislação do MAPA (Lei 9.974, de 06/06/2000
e Decreto 4.074, de 04/01/2002).
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