No manejo
do solo, a primeira e talvez a mais importante operação
a ser realizada é o seu preparo. Longe de ser uma tecnologia
simples, o preparo do solo compreende um conjunto de práticas
que, quando usado racionalmente, pode permitir uma alta produtividade
das culturas a baixos custos, mas pode também, quando usado de
maneira incorreta, levar rapidamente um solo à degradação
física, química e biológica e paulatinamente, diminuir
o seu potencial produtivo.
O atual sistema de exploração agrícola tem induzido
o solo a um processo acelerado de degradação, com desequilíbrio
de suas características físicas, químicas e biológicas,
afetando, progressivamente, o seu potencial produtivo.
Os fatores que causam a degradação do solo agem de forma
conjunta e a importância relativa de cada um varia com as circunstâncias
de clima, do próprio solo e de culturas. Entre os principais
fatores, destacam se: a compactação, a ausência
da cobertura vegetal do solo, a ação das chuvas de alta
intensidade, o uso de áreas inaptas para culturas anuais, o preparo
do solo com excessivas gradagens superficiais e o uso de práticas
conservacionistas isoladas.
Em substituição a esse modelo, o plantio direto, se adotado
corretamente, é prática indispensável para reverter
o processo de degradação dos solo e melhorar o desempenho
da soja e culturas associadas.
As informações contidas no presente capítulo serão
enriquecidas através da leitura dos trabalhos de Torres et al.
(1993) e Torres e Saraiva (1999), editados pela Embrapa Soja.
3.1 Semeadura direta
3.1.1 Importância
No modelo tradicional de cultivo da soja, conceituado como convencional,
o manejo do solo é realizado com número excessivo de operações
de preparo. Somados às demais operações de cultivo,
fazem com que, em uma propriedade, em apenas uma safra agrícola,
máquinas e veículos passem revolvendo ou sobre o solo
por mais de 15 vezes. Essa forma de manejo, principalmente quando o
preparo é feito com implementos e condições de
solo inadequadas, tem causado a desestabilização dos agregado
do solo e a redução da matéria orgânica;
como conseqüência, a ocorrência de erosão, com
perdas de solo e nutrientes.
A matéria orgânica é, em grande parte, responsável
pela CTC e pela estabilidade das características físicas
dos solos, ou seja, agregados estáveis, relação
adequada entre macro e microporos, retenção de água,
e outros, os quais por sua vez afetam direta, ou indiretamente, a produtividade
da soja.
O sistema de semeadura direta é a melhor alternativa para reverter
a situação de degradação gerada pelo cultivo
convencional. Desde que seja adotado de modo correto, apresenta vantagens
sobre os sistemas que revolvem o solo. Como vantagens, o sistema de
semeadura direta diminui a erosão, melhora os níveis de
fertilidade do solo, principalmente de fósforo, mantém
ou aumenta a matéria orgânica, proporciona redução
dos custos de produção (menor desgaste de tratores e maior
economia de combustível, em razão da ausência das
operações de preparo), permite a melhor racionalização
no uso de máquinas, implementos e equipamentos, possibilitando
que as diferentes culturas sejam implantadas nas épocas indicadas
e, finalmente, proporciona estabilidade na produção e
melhoria de vida do produtor rural e da sociedade.
3.1.2 Implantação e requisitos
3.1.2.1
Conscientização
Tanto os
agricultores, como a assistência técnica, devem estar predipostos
a mudanças, conscientes de que o sistema é importante
para alcançar êxito e rentabilidade na atividade agrícola.
A assistência técnica capacitada é fundamental,
pois, as tecnologias, principalmente na fase inicial de adoção,
requerem acompanhamento permanente e contínuo.
3.1.2.2 Levantamento dos recursos
O conhecimento detalhado da propriedade agrícola é
essencial para a obtenção de sucesso com a adoção
do sistema de semeadura direta. Para tanto é necessário
o levantamento das condições do solo, da incidência
de plantas daninhas, da disponibilidade de máquinas e implementos
agrícolas, e do potencial dos recursos humanos.
Solos: Organizar as informações referentes a tipos
de solo, fertilidade, acidez, presenças de camada compactada,
ocorrências de erosão, vias de acesso e toda infraestrutura.
Todas essas informações deverão ser obtidas de
modo correto, para representarem com fidelidade as condições
da propriedade. As amostragens, para conhecimento das condições
físicas e químicas do solo, deverão ser realizadas
de acordo com as indicações específicas para coleta
(forma de coleta, número de amostras e o envio ao laboratório).
Plantas daninhas: O levantamento e o mapeamento da infestação
de plantas daninhas (espécies e intensidade) serão passos
importantes, para a racionalização dos custos no sistema
de semeadura direta, já que os herbicidas são um dos principais
componentes dos custos de produção. Essa etapa servirá
como base para orientação do local e do método
de controle de plantas daninhas a ser empregado.
Máquinas e implementos agrícolas: Já existem,
disponíveis no mercado, um bom número de modelos de semeadoras
para serem utilizadas no sistema de semeadura direta. Semeadoras que
foram aprimoradas com o passar dos anos, atualmente permitem um bom
estabelecimento das lavouras de soja ou de qualquer outra cultura, desde
que sejam observadas as informações específicas
de regulagem em função do tipo de solo e da quantidade
dos restos de cultura. A textura do solo é um dos parâmetros
orientadores da escolha do modelo de semeadora. Outros parâmetros
importantes são a capacidade de cortar resteva e abrir sulcos,
uniformizar a profundidade de semeadura e cobrir as sementes. Nessa
etapa devem ser considerados os tipos de discos que fazem o corte da
palhada e/ou a abertura de sulcos, a necessidade de pequenos sulcadores
(botas ou escarificadores) junto aos discos, presença de limitador
de profundidade de semente, etc. As culturas que fazem parte do sistema
de rotação empregado na propriedade devem, também,
influenciar sobre a escolha da semeadora, no que toca ao sistema de
distribuição de sementes. Assim, deve-se procurar uma
semeadora versátil que atenda com eficiência todas as necessidades
da propriedade rural. Algumas semeadoras, utilizadas atualmente no sistema
convencional, apresentam condições de serem adaptadas,
para possibilitar o corte da palha, a abertura de sulcos e o fechamento
dos mesmos, após a semeadura no sistema de semeadura direta.
Essas adaptações tem se mostrado com baixo custo e boa
eficiência operacional.
Recursos humanos: O agricultor deve ter consciência que,
a partir da decisão que tomou em implantar o sistema de semeadura
direta, terá pela frente um novo sistema, que exigirá
uma postura diferente daquela que tinha anteriormente. Para isso, deverá
ser treinado e permitir que seus operadores de máquinas o sejam
também, principalmente, no uso de semeadoras e na tecnologia
de controle de plantas daninhas. Devem obter conhecimentos sobre a identificação
e estádio de desenvolvimento de plantas daninhas, tecnologia
da aplicação de herbicidas (vazão e tipo de bicos
de pulverizadores), hora ideal de aplicação de cada produto,
seleção de herbicidas, métodos de aplicação
de corretivos de solo e outros assuntos pertinentes. A participação
dos produtores em associações de sistema de semeadura
direta auxilia na troca de experiências e na reciclagem de conhecimentos.
O acompanhamento da assistência técnica é indispensável,
pois muitas das decisões requerem informações específicas
que necessitam da participação de um engenheiro agrônomo.
3.1.2.3 Planejamento
Em qualquer atividade, o planejamento é uma das mais importantes
etapas para a redução de erros e riscos, ou seja, para
aumentarem as chances de sucesso. O planejamento envolve a análise
dos custos e dos benefícios proporcionados pela adoção
do novo sistema. Deve ser considerado: a) necessidade de novas máquinas
e equipamentos, utilização de sistemas de rotação
de culturas, mercado consumidor para as culturas que compõem
o sistema e necessidade de capacitação de pessoal; b)
elaboração e interpretação das informações
obtidas na propriedade, como análise de fertilidade de solo,
necessidade de incorporação de fertilizantes e corretivos,
existência de camadas compactadas nos solos, incidência
e nível de infestação de plantas daninhas e infra-estrutura
básica da propriedade. Essas informações devem
ser mapea-das, para servirem de subsídios para a programação
da divisão da propriedade em glebas e formulação
de um cronograma de atividades.
Na formulação do cronograma, é importante que se
conheça toda a tecnologia disponível para cada região.
Alguns pré-requisitos são importantes e devem ser considerados
na implantação e na condução do sistema,
principalmente, para áreas cultivadas já há algum
tempo com o sistema convencional:
- no início das atividades, a área do sistema de semeadura
direta deve ser pequena, para que o agricultor possa adquirir experiência.
Deve buscar as soluções de suas dificuldades junto a assistência
técnica e a agricultores com mais experiência. Só
após familiarizado com o sistema, deve aumentar a área
(sob sistema de semeadura direta) na propriedade;
- a acidez do solo deve ser corrigida a uma profundidade de 20 a 25
cm. O tipo e a quantidade do corretivo a ser aplicado deve ser orientado
através do resultado da análise de solo, em função
do sistema de produção da propriedade. A incorporação
do corretivo de acidez pode ser simultânea à operação
de descompactação, porém com o implemento indicado
para a incorporação;
- é imprescindível a presença de cobertura com
restos de culturas, para a proteção do solo;
- o solo deve estar livre de camadas compactadas e nivelado. A operação
de descompactação pode ser feita com escarificadores,
subsoladores ou arados. A profundidade desse trabalho deve ser indicada
por uma avaliação de resistência do solo. Se após
esse trabalho ainda permanecerem vestígios de sulcos de erosão,
estes devem ser eliminados com o emprego de escarificadores e grades
niveladoras; e
- na colheita de grãos, a colhedora deve ser provida de picador
de palhas ou de outra adaptação, regulados para fragmentar
os resíduos e bem distribuí-los na superfície do
solo. Tanto a operação de colheita, como a de manejo das
espécies para adubação verde, não devem
fragmentar as plantas em tamanhos muito pequenos. Resíduos pequenos
possuem maior contato com o solo e são decompostos muito rapidamente.
3.2 Cobertura do solo
A cobertura do solo é indispensável para o
sucesso do plantio direto. Para isso, a soja, preferencialmente, deve
ser cultivada em sistemas ordenados de rotação de culturas,
sempre planejados para deixar os solos cobertos o maior espaço
de tempo possível. A quantidade e a qualidade dos restos de culturas
são determinantes para recuperar a matéria orgânica
do solo, auxiliar no controle de plantas daninhas, permitir a reciclagem
de nutrientes, reduzir riscos de erosão, aumentar a capacidade
de armazenamento de água no solo, além de outros.
A aveia preta e o milho, dentre outras, são culturas importantes
para serem cultivadas num sistema de rotação (ver esquemas
no capítulo de rotação de culturas). A soja, quando
cultivada após aveia rolada, apresenta excelente desempenho,
principalmente quando ocorrem problemas de veranicos, observando-se,
nessas condições, aumentos de até 20% na produtividade,
em relação a outras condições de manejo
de solo e culturas.
A aveia ainda proporciona menor incidência das doenças
causadas por Rhizoctonia solani e Sclerotinia sclerotiorum
em soja e diminui a incidência de plantas daninhas, principalmente
de Brachiaria plantaginea (capim mamelada).
3.2.1 Manejo das espécies para cobertura do solo
É
importante que os resíduos não sejam fragmentados em tamanho
muito pequeno, para que a decomposição dos mesmos não
seja acelerada.
O manejo das espécies destinadas à adubação
verde podem ser realizados mecanicamente (rolo-faca, roçadeira,
trituradores, etc) ou com herbicidas. No caso da aveia, a melhor cobertura
é obtida quando o manejo é feito com rolo-faca na fase
de floração plena. A operação de rolagem
deve ser realizada quando o solo estiver seco, procurando, com isso,
evitar que o implemento compacte o solo, por ser pesado. O manejo da
aveia, com herbicidas, pode ser feito quando a mesma estiver no início
da fase de grãos leitosos. O atraso na época de manejo
pode permitir que as sementes tornem-se viáveis e invasoras na
safra seguinte. A dessecação da aveia faz com que a maiorias
das plantas permaneçam em pé e só sejam quebradas
e deitadas por ocasião da semeadura. Essa última prática
é discutível em áreas com problemas de infestação
de plantas daninhas.
Outras espécies como nabo e o tremoço, também podem
ser cultivadas em sistemas de rotação de culturas que
envolvam a soja, porém, elas entram no sistema antes do milho
(ver capítulo sobre rotação de culturas). Essas
espécies podem ser manejadas mecanicamente, através dos
métodos já descritos anteriormente, na fase de floração
e início de formação de grãos. Atualmente,
pratica-se o consórcio do nabo ou do tremoço com a aveia,
com excelentes resultados.
Para solos degradados, com problemas de compactação, pode-se
semear o milho consorciado com guandú, onde todas as operações
podem ser mecanizadas (detalhes no capítulo sobre rotação
de culturas).
3.2.1
Manejo dos resíduos culturais
O manejo
dos resíduos culturais deve ser uma das preocupações
constante em se tratando de plantio direto. A queima dos resíduos
culturais ou da vegetação de cobertura do solo, além
de reduzir a infiltração de água e aumentar a suscetibilidade
do solo à erosão, contribui para a diminuição
do teor de matéria orgânica do solo e, consequentemente,
influi na capacidade dos solos em reter cátions trocáveis.
Durante a queima existe conversão dos nutrientes da matéria
orgânica para a forma inorgânica de nitrogênio, enxofre,
fósforo, potássio, cálcio, magnésio e micronutrientes.
Esses nutrientes contidos podem ser perdidos por volatilização
durante a queima ou por lixiviação e/ou erosão
das cinzas.
3.2.1.2
Manejo dos resíduos das culturas destinadas à produção
de grãos
Os primeiros procedimentos para se ter uma cobertura adequada
e uniforme devem começar por ocasião da colheita das culturas
destinadas a grãos. A colhedora deve ser regulada para que a
palha seja picada e distribuída uniformemente sobre o terreno,
numa faixa equivalente à sua largura de corte. Na colheita, o
uso de picador de palha é indispensável. O picador deve
ser regulado para uma distribuição uniforme da palha sobre
o solo, numa faixa equivalente a largura de corte da colhedora para
facilitar as práticas culturais em presença de resíduos
das culturas, como as de semeadura e a ação dos herbicidas.
Para a cultura do milho, no caso de ausência do uso de picador
de palha na colhedora, poderá haver necessidade de uma operação
complementar para picar melhor os resíduos. Para tanto, pode
se utilizar a roçadora, a segadora, o tarup, ou trituradores.
No caso desse ultimo implemento, procurar regulá-lo de modo que
os resíduos não fiquem exageradamente pequenos.
3.3
Desempenho e condução do sistema de semeadura direta
Em razão das diferentes condições de
clima e solo, o sistema de semeadura direta tem um comportamento distinto
nas diferentes regiões do Estado. Diferenças nas características
físicas e químicas fazem com que os solos respondam diferencialmente
à mecanização, à adubação
e à correção. O clima afeta a persistência
dos resíduos e da matéria orgânica. Esta interage-se
com as partículas primárias e secundárias do solo,
para determinar o comportamento das suas características físicas,
as quais tem efeito sobre a aeração, regime térmico,
disponibilidade de água e resistência das camadas de impedimento,
que são os parâmetros que influenciam diretamente o desenvolvimento
da soja. As modificações desses processos no solo é
dinâmica e exige, com o passar dos anos, um acompanhamento específico
de cada situação, para definir a melhor tecnologia, a
ser utilizada na região e na propriedade. Assim, após
a implantação do sistema de semeadura direta, é
importante acompanhar o seu desempenho, preferencialmente, por glebas.
Esse acompanhamento deve constar de análise de solo, tanto de
fertilidade, como física, do monitoramento da dinâmica
de pragas, de doenças, de plantas daninhas e, também,
da produtividade das culturas.
A análise de fertilidade do solo mostrará a evolução
da matéria orgânica, característica importante para
definir a evolução do sistema, além da necessidade
de calagem e aplicações de fertilizantes.
A análise física do perfil do solo deve contemplar a avaliação
da resistência à penetração e a presença
de canalículos no solo, devido a atividade de insetos e a decomposição
de raízes, os quais são espaços importantes para
a reciclagem de nutrientes e crescimento de raízes. Para complementar
essas informações, é importante avaliar a distribuição
do sistema radicular da soja.
A seguir
são listados alguns problemas levantados por agriculturos e as
formas de diagnosticá-los:
3.3.1
Compactação do solo
É assunto polêmico, quando
se trata de sistema de semeadura direta nos solos originadas do basalto
(na maioria, latossolos roxos e terras roxas). Porém, deve ficar
claro que a compactação não inviabiliza o sistema
de semeadura direta nos latossolos, porém exige um melhor acompanhamento.
A compactação é o aumento da densidade do solo
em função do arranjamentos das partículas primária
(argila, silte e areia). Quando o solo é submetido a um esforço
cortante e/ou de pressão, há redução do
espaço aéreo, aumentando sua densidade aparente. Normalmente,
os solos formados por partículas pequenas, e de diferentes tamanhos,
são mais facilmente compactados, porque as partículas
pequenas podem ser encaixadas nos espaços formados entre partículas
maiores, formando camadas de impedimento com baixa macroporosidade.
O processo de compactação é intensificado pela
redução dos agentes de estrutura (matéria orgânica,
redução da atividade de alguns microorganismos, exudados
de plantas e outros).
Esses conceitos conduzem à indicações de que os
latossolos roxos e as terras roxas apresentam características,
que os tornam mais susceptíveis à compactação,
devido aos elevados teores de argila. Essa condição é
agravada quando os solos são preparados com número excessivo
de operações de implementos e condições
inadequadas de umidade. Essa prática, além de reduzir
drasticamente a matéria orgânica, dificulta sua recuperação,
mesmo com a incorporação de restos de culturas ao solo.
O sistema de semeadura direta é a melhor alternativa para recuperar
a matéria orgânica e o estado de agregação
dos solos, possibilitando que os mesmos proporcionem, com o passar dos
anos, produtividades estáveis. Porém, quando se implanta
o sistema de semeadura direta em condições de solo degradado,
principalmente nos primeiros anos, podem aparecer problemas de adensamento,
os quais devem ser monitoradas, para definir o seu real efeito sobre
o desenvolvimento da soja.
3.3.1.1
Monitoramento da compactação do solo
Primeiramente,
deve-se ter um histórico de produtividade da propriedade, por
vários anos, se possível por talhões. Em seguida,
deve-se fazer uma análise das tendências de produtividade.
Caracterizado o decréscimo de produtividade, verificar se o mesmo
não é causado por problemas climáticos, pragas
e/ou doenças, deficiências de nutrientes, acidez do solo,
exigência termofotoperíodica das cultivares, além
de outros. Excluídas essas possibilidades, a melhor maneira de
verificar o efeito da compactação sobre o desenvolvimento
da soja é através de um diagnóstico, que deve associar
dados de resistência do solo (profundidade e intensidade), obtidos
com auxílio de um penetrômetro, com a distribuição
de raízes no perfil do mesmo. A distribuição de
raízes deverá ser avaliada através da abertura
de uma trincheira, verificando-se a concentração de raízes
nas diferentes camadas até a profundidade de 40 a 50cm. Avaliar
também a intensidade da presença de fendas e canalículos,
e a ocorrência neles de eluviação de solo da superfície
e o crescimento de raízes em direção às
camadas mais profundas. Definido que o desenvolvimento radicular concentrado
na camada superficial é a causa real do decréscimo de
produtividade, pode-se então pensar em descompactar o solo. É
importante, ainda, considerar que, normalmente, no preparo convencional,
a concentração superficial de raízes está
relacionada com queda de produtividade. No sistema de semeadura direta,
nem sempre. Sob esse sistemas, em algumas situações pode
ocorrer concentração de raízes nas camadas superficiais,
porém, algumas conseguem desenvolver-se através de canalículos,
alcançando camadas mais profundas do solo, e auxiliar no suprimento
de água e nutrientes às plantas. Além do mais,
as raízes superficiais podem localizar-se numa camada rica em
matéria orgânica e nutrientes, caraterísticas do
sistema de semeadura direta, que se mantem úmida em função
da cobertura morta do solo, podendo proporcionar condições
satisfatórias para o desenvolvimento da soja.
3.3.1.2
Manejo da compactação
Normalmente
a rotação de culturas é a melhor forma de prevenir
ou diminuir a compactação do solo. Sistemas de rotação
de culturas evolvendo espécies com sistema radicular profundo
vigoroso, como o do nabo forrageiro, do guandu, do tremoço, das
crotalárias, da aveia preta, e do milheto, auxiliam na descompactação
do solo. Caso a rotação de culturas não resolva
o problema, sugere-se duas alternativas, desde que haja estrutura na
propriedade. A primeira é a utilização de semeadoras
que possuem sulcadores (facões) logo atrás dos discos
de corte, os quais ajudarão a romper a camada compactada na linha
de semeadura. Esse sistema, no entanto, exige facões com ângulo
de ataque ao solo em torno de 20o e com expessura de 2 cm. Não
observando essa condição, dependendo da profundidade de
trabalho, podem ocorrer problemas na emergência e no estabelecimento
da lavoura, principalmente se as sementes forem distribuídas
a uma profundidade adequada. Em complemento, como a semeadura da cultura
é feita com solo úmido, o trabalho de descompactação
ocorrerá apenas na linha de semeadura, podendo ocorrer superfície
espelhada no sulco, no caso de uso de facões inadequados.
A segunda alternativa é baseada no uso de alguns tipos de escarifi-cadores,
cujo formato das hastes permite que a camada compactada seja rompida
sem afetar muito o nivelamento do terreno. Essa condição
possibilita que a semeadura seja feita sem o nivelamento do terreno
ou com apenas uma passada de grade niveladora.
A operação de descompactação deve ser feita
após a colheita da soja e antes da semeadura do trigo ou aveia.
Essa seqüência é importante porque:
a) a cultura da soja produz uma quantidade relativamente pequena de
restos, que são de rápida decomposição.
Quando bem fragmentados e distribuídos sobre o terreno permitem
que a operação de descompactação do solo
seja feita com o mínimo de embuchamento do implemento, devido
a presença de palha; e
b) a maior rusticidade das culturas de trigo e de aveia garantem germinação
satisfatória e um bom estabelecimento de lavoura, mesmo em terreno
com pequenos problemas de nivelamento.
Para evitar embuchamento da semeadora, devido a presença de palha
na superfície do solo, indica-se esperar uma ou duas chuvas,
para depois realizar a semeadura, nesse caso, com a velocidade de operação
reduzida. Como norma, preparar o solo sempre na umidade friável.
A área utilizada com essa tecnologia deve ser inicialmente pequena,
para que o agricultor faça suas experiências. Para isso,
deve procurar informações sobre o tipo de implemento mais
adequado, se possível, com demonstração.
3.4
Sistema convencional de preparo do solo
Como já foi comentado anteriormente, o plantio direto
é a prática mais correta de manejo e conservação
do solo. No entanto, na impossibilidade de adoção do plantio
direto, e em se fazendo o sistema convencional de preparo do solo, é
necessário que cada operação seja planejada conscientemente
com os objetivos definidos e com implementos adequados à sua
realização. O solo deve ser preparado com o mínimo
de movimentação, não implicando isso uma diminuição
de profundidade de trabalho, mas sim uma redução do número
de operações, deixando a superfície do solo rugosa
e mantendo os resíduos culturais total ou parcialmente sobre
a superfície.
Alguns pontos devem ser observados para que o preparo do solo seja conduzido
da maneira satisfatória.
Em áreas onde o solo sempre foi preparado superficialmente, principalmente
no caso de solos distróficos ou álicos, o preparo mais
profundo poderá trazer para a superfície parte da camada
de solo não corrigida com presença de alumínio,
manganês e ferro em níveis tóxicos, e baixa disponibilidade
de fósforo, que podem prejudicar o desenvolvimento das plantas.
Nesse caso, faz se necessário o conhecimento da distribuição
dos nutrientes e pH no perfil do solo através de amostragem estratificada
e a neutralização pela calagem.
O preparo primário do solo (aração, escarificação),
deve atingir profundidade suficiente para romper a camada subsuperficial
compactada e permitir a infiltração de água.
Em substituição à gradagem pesada no preparo primário
do solo, utilizar aração ou escarificação.
A escarificação como alternativa de preparo substitui,
com vantagem, a aração e a gradagem pesada, desde que
se reduza o número de gradagens niveladoras. Além disso,
possibilita maior quantidade de resíduos culturais na superfície,
o que é desejável.
O preparo secundário do solo (gradagens niveladoras), se necessário,
deve ser feito com o mínimo possível de operações
e próximo da semeadura da cultura.
As semeadoras, para operarem eficazmente em áreas com o preparo
mínimo e com resíduos culturais, devem ser equipadas com
disco duplo para a colocação da semente e roda reguladora
de profundidade para que haja um pequeno adensamento na linha de semeadura.
O preparo do solo não é só o seu revolvimento.
É também manejá-lo corretamente considerando o
implemento, a profundidade de trabalho, a umidade adequada e as suas
condições de fertilidade.
3.4.1
condições de umidade para o preparo do solo
Quando
o preparo é efetuado com o solo úmido, este pode ficar
predisposto à formação de camada subsuperficial
compactada e aderir com maior força aos implementos (em solos
argilosos) até o ponto de impossibilitar a operação
desejada.
Por outro lado, deve se também evitar o preparo com o solo muito
seco por ser necessário maior número de gradagens, para
obter se suficiente destorroamento que permita efetuar a operação
de semeadura. Caso seja imprescindível o preparo primário
com o solo seco, realizar o nivelamento e o destorroamento após
uma chuva.
A condição ideal de umidade para o preparo do solo pode
ser detectada facilmente a campo: toma se um torrão de solo,
coletado na profundidade média de trabalho, o qual, submetido
a uma leve pressão entre os dedos polegar e indicador, desagrega
se sem oferecer resistência.
Quando do uso de arado de disco e grades para preparar o solo, pode
se considerar como umidade ideal a faixa friável; quando do uso
de escarificador e arado de aiveca, a faixa ideal é tendendo
a seco (Fig. 3.1). A semeadura direta
deve ser executada na faixa de friável a úmido.
3.4.2
Alternância de uso de implementos no preparo do solo
O uso excessivo
do mesmo implemento no preparo do solo, operando sistematicamente na
mesma profundidade e, principalmente, em condições de
solo úmido, tem provocado a formação de camada
compactada.
A alternância de implementos de preparo do solo que trabalham
a diferentes profundidades e possuam diferentes mecanismos de corte,
e a observância do teor de umidade adequado para a movimentação
do solo, são de relevante importância para minimizar a
sua degradação.
Assim, indica se por ocasião do preparo do solo, alternar a sua
profundidade a cada safra agrícola, e se possível, a utilização
alternada de implementos de discos com implementos de dentes.
3.5
Compactação do solo no preparo convencional
A compactação
do solo é provocada pela ação e pressão
dos implementos de preparo do solo, especialmente quando estas operações
são feitas em condições de solo úmido e
continuamente na mesma profundidade, somadas ao tráfego intenso
de máquinas agrícolas.
Tais situações têm contribuido para a formação
de duas camadas distintas: uma camada superficial pulverizada e outra
subsuperficial compactada (pé de arado ou pé de grade).
Esses problemas começam a chamar a atenção para
o aumento do custo de produção por unidade de área
e diminuição da produtividade do solo.
Solos com presença de camadas compactadas caracterizam se por
baixa infiltração de água, ocorrência de
enxurrada, raízes deformadas, estrutura degradada, resistência
à penetração dos implemen-tos de preparo, exigindo
maior potência do trator, e pelo aparecimento de sintomas de deficiência
de água nas plantas, mesmo sob pequenos períodos de estiagens.
Identificado o problema, abrem se pequenas trincheiras e detecta se
a profundidade de ocorrência de compactação, observando
se o aspecto morfológico da estrutura do solo, ou verificando
se a resistência oferecida pelo solo ao toque com um instrumento
pontiagudo qualquer. Normalmente, o limite inferior da camada compactada
não ultrapassa a 30 cm de profundidade.
3.5.1
Rompimento de camada compactada no sistema convencional
O rompimento
da camada compactada deve ser feito com um implemento que alcance a
profundidade imediatamente abaixo do seu limite inferior.
Podem ser empregados com eficiência, arados, subsoladores e escarificadores,
desde que sejam utilizados na profundidade adequada.
O sucesso do rompimento da camada compactada está na dependência
de alguns fatores:
· profundidade de trabalho: o implemento deve ser regulado
para operar na profundidade imediatamente abaixo da camada compactada;
· umidade do solo: para o uso de arado, seja de disco
ou aiveca, a condição de umidade apropriada é aquela
em que o solo está na faixa friável. Em solos úmidos
há aderência nos órgãos ativos dos implementos
e em solos secos, há maior dificuldade de penetração
(arado de discos). Para o uso de escarificadores ou subsoladores, a
condição de umidade apropriada é aquela em que
o solo esteja seco. Estando úmido, o solo não sofre descompactação
mas amas-samento entre as hastes e selamento dos poros no fundo e laterais
do sulco;
· espaçamento entre as hastes: quando do uso de
escarificador ou subsolador, o espaçamento entre uma haste e
outra determina o grau de rompimento da camada compactada pelo implemento.
O espaçamento entre as hastes deverá ser de 1,2 a 1,3
vezes a profundidade de trabalho pretendida.
A efetividade
desta prática está condicionada ao manejo do solo adotado
após a descompactação. São indicadas, em
sequência a esta operação, a implantação
de culturas com alta produção de massa vegetativa, com
alta densidade de plantas e com sistema radicular abundante e agressivo,
e a redução da intensidade dos preparos de solo subseqüentes.
3.6
Rotação de culturas
Para uma
adoção eficiente do sistema de semeadura direta, é
essencial o uso do processo de rotação de cultura, utilizando-se
culturas anuais e espécies vegetais para cobertura do solo. A
rotação de culturas pode tanto ser de lavouras anuais
exclusivas, como com espécies forrageiras perenes, num sistema
agropecuário integrado.
A rotação de culturas, devido a diversificação
do cultivo de espécies vegetais diferentes, ameniza os problemas
fitossanitários nas espécies destinadas à produção
de grãos.
Espécies produtoras de grande quantidade de palha e raiz, além
de favorecer o sistema de semeadura direta, a reciclagem de nutrientes
e estabelecer o aumento da proteção do solo contra a ação
dos agentes climáticos, promove a melhoria do solo nos seus atributos
físicos e biológicos. A diversificação da
cobertura vegetal constitui-se em processo auxiliar no controle de plantas
daninhas ocorrentes na soja, principalmente nos primeiros anos de implantação
da semeadura direta.
No Paraná, trabalhos realizados com soja, trigo e cevada, indicam
que a rotação apresenta, dependendo do domínio
ecológico, as seguintes influências sobre a semeadura direta:
a) viabiliza o sistema no norte;
b) auxilia no oeste e centro-oeste e
c) aumenta a eficiência no centro-sul do estado. São apresentadas,
no capítulo sobre rotação de culturas, várias
seqüências culturais, indicadas para o sistema de semeadura
direta.