A cultura
da soja está, praticamente durante todo seu ciclo, sujeita ao
ataque de insetos. Logo após a emergência, insetos como
a “lagarta rosca” e a “broca do colo” podem atacar as plântulas.
Posteriormente, a “lagarta da soja”, a “falsa medideira” e a “broca
das axilas” atacam as plantas durante a fase vegetativa e, em alguns
casos, até a floração. Com o início da fase
reprodutiva, surgem os percevejos, que causam danos desde a formação
das vagens até o final do desenvolvimento das sementes. Além
destas, a soja é suscetível ao ataque de outras espécies
de insetos, em geral menos importantes do que as referidas. Porém,
quando atingem populações elevadas, capazes de causar
perdas significativas no rendimento da cultura, essas espécies
necessitam ser controladas.
10.1.
Definição
Para o
controle das principais pragas da soja, indica-se a utilização
do “Manejo de Pragas”. É uma tecnologia que consiste, basicamente,
de inspeções regulares à lavoura, verificando se
o nível de ataque, com base na desfolha e no número e
tamanho das pragas. Nos casos específicos de lagartas desfolhadoras
e percevejos, as amostragens devem ser realizadas com um pano de batida,
preferencialmente de cor branca, preso em duas varas, com 1 m de comprimento,
o qual deve ser estendido entre duas fileiras de soja. As plantas da
área compreendida pelo pano devem ser sacudidas vigorosamente
sobre ele havendo, assim, a queda das pragas que deverão ser
contadas. Este procedimento deve ser repetido em vários pontos
da lavoura, considerando se, como resultado, a média de todos
os pontos amostrados. No caso de lavouras com espaçamento reduzido
entre as linhas, usar o pano batendo apenas as plantas de uma fileira.
O controle deve ser executado somente quando forem atingidos os níveis
críticos (Tabela 10.1).
10.2. Pragas principais
A lagarta da soja deve ser controlada quando forem encontradas, em média,
40 lagartas grandes por pano de batida ou se a desfolha atingir 30%
antes do florescimento e 15% tão logo apareçam as primeiras
flores. Utilizando-se o Baculovirus anticarsia, devem ser considerados
outros índices citados em parágrafo posterior.
O controle de percevejos deve ser iniciado quando forem encontrados
4 percevejos adultos ou ninfas com mais de 0,5 cm por pano de batida
e, para o caso de campos de produção de sementes, este
nível deve ser reduzido para 2 percevejos/pano de batida.
Os produtos indicados para o controle das principais pragas anteriormente
referidas encontram se nas Tabelas 10.2,
10.3 e 10.5.
Na escolha do produto, deve se levar em consideração a
sua toxicidade, efeitos sobre inimigos naturais e o custo por hectare.
Para o controle da lagarta da soja, Anticarsia gemmatalis, deve se dar
preferência à utilização do vírus
Baculovirus anticarsia, o qual pode ser usado também em aplicação
aérea.
Nesse caso, pode se empregar a água como veículo, na quantidade
de 15 l/ha. Caso a aplicação tenha início pela
manhã, o preparo do material pode ser realizado durante a noite.
Ajustar o ângulo da pá do “micronair” para 45 a 50 graus,
estabelecer a largura da faixa de deposição em 18 m e
voar a uma altura de 3 5 m, a 105 milhas/hora, com velocidade do vento
não superior a 10 km/h (detalhes no folder “Controle da lagarta
da soja por Baculovirus”, em Moscardi (1993) e em Gomez & Gazzoni
2000).
Ao se utilizar B. anticarsia devem ser consideradas 40 lagartas
pequenas ou 30 lagartas pequenas e 10 lagartas grandes por pano de batida.
Quando ocorrerem ataques da lagarta da soja no início do desenvolvimento
da cultura (plantas até o estádio V4, com três folhas
trifolioladas), e associados com períodos de seca, o controle
da praga poderá ser realizado com outros produtos seletivos e
indicados, visto que, nestas condições, poderá
ocorrer desfolha que prejudicará o desenvolvimento das plantas.
No caso dos percevejos, em muitas situações, o seu controle
pode ser efetuado apenas nas bordas da lavoura, sem necessidade de aplicação
de inseticida na totalidade da área. Isto porque o ataque desses
insetos inicia se pelas áreas marginais, aí ocorrendo
as maiores populações. Para detectar essas infestações
maiores nas bordas da lavoura é necessário fazer batidas
de pano ao longo das mesmas, comparando-se os números de percevejos
encontrados com os números de percevejos presentes na parte mais
central da lavoura. Essas amostragens devem ser realizadas semanalmente,
nas primeiras horas da manhã (até 10 horas), quando os
insetos se localizam nas partes superiores das plantas e são
mais facilmente visualizados. As vistorias para avaliar a ocorrência
dos percevejos devem ser executadas do início de formação
de vagens (R3) até a maturação fisiológica
(R7). A simples observação visual não expressa
a população real presente na lavoura.
Uma
alternativa econômica de controle dos percevejos é a mistura
de sal de cozinha (cloreto de sódio) com a metade da dose de
qualquer um dos inseticidas indicados na Tabela
10.3 (ver observações no rodapé).
10.3.
Outras pragas
A lagarta “falsa medideira” (ocorrendo sozinha ou associada com a lagarta
da soja) deve ser controlada quando forem encontradas, em média,
40 lagartas grandes por pano-de-batida ou se a desfolha atingir 30%
antes do florescimento e 15% tão logo apareçam as primeiras
flores.
Para a broca das axilas, o nível crítico está em
torno de 25% a 30% de plantas com ponteiros atacados.
No caso das lagartas das vagens, indica se a aplicação
de inseticidas somente quando houver um ataque de, pelo menos, 10% das
vagens das plantas, na média dos diferentes pontos de amostragem.
O controle dessas pragas pode ser feito com os inseticidas relacionados
na Tabela 10.4.
Os tripes ocorrem em praticamente todo o estado e, em anos secos, geralmente
em altas populações. Porém, por si só, o
dano causado por esses insetos às plantas, em decorrência
do processo de sua alimentação, não é problemático
à soja. Assim, o controle químico desses insetos não
se justifica. Embora vários produtos como acefato (400 g i.a./ha),
malatiom (800 g i.a./ha) e metamidofós (450 g i.a./ha) sejam
eficientes contra os tripes, em áreas onde a ocorrência
da virose “queima do broto” é comum (região centro sul
do Paraná), estes inseticidas não têm evitado a
incidência e a disseminação da doença, mesmo
quando aplicados várias vezes sobre a cultura.
Outro inseto que vem ocorrendo em lavouras de soja, principalmente onde
é realizado o cultivo mínimo e a semeadura direta, é
o “tamanduá da soja” ou “bicudo da soja”.
Os danos são causados, tanto pelos adultos, que raspam o caule
e desfiam os tecidos, como pelas larvas, broqueando e provocando o surgimento
de galha.
A rotação de culturas é a técnica mais eficiente
para o manejo adequado do tamanduá-da-soja, mas sempre associada
a outras estratégias, como plantas-iscas e controle químico
na bordadura da lavoura. Nos locais em que, na safra anterior, foram
observados ataques severos doinseto, antes de planejar o cultivo da
safra de verão seguinte, deve ser avaliado o grau de infestação
na entressafra, entre maio e setembro. Para cada 10 ha, devem ser retiradas
quatro amostras de solo, centradas nas antigas fileiras de soja, com
1m de comprimento, e largura e profundidade de uma pá de corte.
Após a observação cuidadosa da amostra, realizar
a contagem do número de larvas hibernantes. Se, na média,
forem encontradas de três a seis larvas/amostra, existe a possibilidade
de, no mínimo, uma ou duas atingirem o estádio adulto,
podendo causar uma quebra de sete a 14 sacas de soja por hectare, na
safra seguinte. Nesse local, a soja deve ser substituída por
uma espécie não hospedeira (por exemplo, milho, milheto,
sorgo ou girassol), na qual o inseto não se alimenta e, conseqüentemente,
interrompe o seu ciclo biológico.
Resultados de pesquisa mostraram que, no final do período de
rotação soja-milho-soja, o percentual de plantas mortas
e danificadas é significativamente menor, e a produtividade maior,
quando comparado ao monocultivo soja-soja-soja. Adicionalmente, nas
áreas com milho, existe a vantagem de se reduzir, drasticamente,
a população de larvas hibernantes. Portanto, essa técnica
é altamente indicada para sistemas equilibrados de produção
de soja e essencial em áreas com ataques freqüentes da praga.
Entretanto, têm sido observados danos significativos, concentrados
nas áreas onde a planta não-hospedeira limita com a soja
(bordaduras), as quais servem com primeira fonte alimentar do inseto.
Para evitar que ele infeste toda a lavoura de soja, as sementes podem
ser tratadas com o inseticida fipronil e semeadas numa bordadura que
deve medir entre 40 e 50 m de largura. O controle do inseto se justifica
quando, no exame de plantas com duas folhas trifolioladas, for
encontrado um adulto por metro de fileira, incluindo a face inferior
das folhas e o caule. Com cinco folhas trifolioladas (próximo
à floração), a soja tolera até dois adultos
por metro linear. As pulverizações noturnas, entre
as 22 h e as 2 h, são mais eficientes, pois a maioria dos adultos,
neste período, encontra-se na parte superior das plantas, em
acasalamento.
O complexo
de corós é outro grupo de insetos que vem causando danos
à soja no Paraná, especialmente na região centro-oeste,
onde predomina a espécie Phyllophaga cuyabana. Os danos são
causados pelas larvas, principalmente a partir do 2o ínstar,
as quais consomem raízes. Os sintomas de ataque vão desde
o amarelecimento das folhas e redução no crescimento da
planta, até a morte de plantas, quando o ataque ocorre no início
do desenvolvimento da lavoura.
O manejo de corós, em soja, deve ser baseado em um conjunto de
medidas que
possam permitir a convivência da cultura com o inseto. O cultivo
de milho ou outra cultura em safrinha nos talhões infestados
por corós deve ser evitado, pois esta prática aumenta
a população na safra seguinte. Na região centro-oeste
do Paraná, a semeadura da soja em outubro, ou no início
de novembro, pode evitar a sincronia dos estádios mais suscetíveis
da cultura, com os ínstares mais vorazes das larvas, diminuindo,
o potencial de danos à lavoura.
O controle químico só é viável quando a
semeadura é feita na presença de larvas com mais de 1
cm. Entretanto, a proteção das plantas, em geral, é
apenas inicial e, ainda, não há nenhum inseticida eficiente,
registrado para esta finalidade, em soja. Os adultos são mais
sensíveis a inseticidas do que as larvas, mas seu controle com
produtos químicos também é difícil, em função
do seu comportamento. A aração do solo nas horas mais
quentes do dia, com implementos que atingem maior profundidade, pode
diminuir a população de corós, através do
dano mecânico às larvas, da sua exposição
a aves e a outros predadores e do deslocamento de larvas em diapausa
e pupas para camadas do solo mais superficiais. Porém, o revolvimento
do solo em áreas de semeadura direta, única e exclusivamente
com objetivo de controlar esse inseto, não é indicado.
Qualquer medida que favoreça o desenvolvimento radicular da planta,
como evitar a formação de camadas compactadas e corrigir
a fertilidade e acidez do solo, também aumentará a tolerância
da soja aos corós, assim como a insetos rizófagos em geral.
10.4.
Manuseio de inseticidas e descarte de embalagens
* Utilizar inseticidas devidamente registrados no Ministério
da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), para uso na
cultura da soja e para a praga-alvo que deseja controlar. O número
do registro consta no rótulo do produto.
* Usar equipamento de proteção individual (EPI) apropriado,
em todas as etapas de manuseio de agrotóxicos (abastecimento
do pulverizador, aplicação e lavagem de equipamentos e
embalagens), a fim de evitar possíveis intoxicações.
* Não fazer mistura em tanque, de dois inseticidas, ou de inseticida
(s) com outro (s) agrotóxico (s), procedimento proibido por lei
(Instrução Normativa do MAPA nº 46, de julho de 2002).
* Evitar aplicações em dias ou em horários com
ventos fortes, visando reduzir a deriva dos jatos, tornando mais eficiente
a aplicação e reduzindo possíveis contaminações
de áreas vizinhas.
* Observar o período de carência do produto (período
compreendido entre a data da aplicação e a colheita da
soja), principalmente no controle de pragas de final de ciclo da cultura
(percevejos, por exemplo).
* Ler com atenção o rótulo e a bula do produto
e seguir todas as orientações e os cuidados com o descarte
das embalagens.
* Devolver as embalagens vazias (após a tríplice lavagem
das embalagens de produtos líquidos), no prazo de um ano após
a compra do produto, ao posto de recebimento indicado na nota fiscal
de compra, conforme legislação do MAPA (Lei 9.974, de
06/06/2000 e Decreto 4.074, de 04/01/2002).